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Fazer amigos: quem viaja sabe.

amandanoventa

16 Março 2015 | 07h18

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Jesse só queria dividir a mesa de jantar quando me pediu licença num hostel da Patagônia. Dividimos a mesa e a viagem inteira. Foi ela quem me indicou o melhor restaurante que fui em Buenos Aires, me deu dicas dos lugares por onde já tinha passado e teve a maior paciência para me explicar passo a passo do trekking em Torres del Paine. Jess, canadense; eu, brasileira. Mas as duas ali pelo mesmo objetivo: fazer uma viagem memorável. E nessas horas não existem diferenças culturais. Aliás, existem, mas elas só aproximam. E essa é uma das mágicas das viagens: quanto mais diferente, melhor.

Procurando alguns estudos sobre amizade, descobri que a vulnerabilidade é um dos segredos para se fazer amigos. Quando duas pessoas ‘baixam a guarda’ a ponto de sentirem-se vulneráveis, elas ficam mais abertas; e, a partir daí, há grandes chances de surgir uma amizade.  Isso explica essa sensação durante uma viagem de que as pessoas são mais confiáveis, são iguais a você e que vocês estão no mesmo barco…

No mesmo barco eu estava com Elizabeth enquanto fazíamos uma travessia no Lago Superior, no norte dos Estados Unidos. Uma holandesa que depois de uma desilusão amorosa decidiu dar a volta ao mundo. A viagem de barco ficou mais interessante com suas histórias enquanto me contava o que já tinha visto pelo mundo e me dava algumas boas ideias pra vida – por que temos essa sensação de que as pessoas que cruzamos pela estrada (ou pelos lagos) acabam nos ensinando alguma coisa?


Porque, mais uma vez, estamos vulneráveis e dispostos a ouvir sem julgamentos e prepotência. Aliás, disposição para ouvir é outro efeito causado pelas viagens bastante escasso numa rotina da vida normal onde temos que dar opiniões o tempo todo.

E foi para ouvir que Denise sentou-se ao meu lado no aeroporto, durante a espera de um voo atrasado para a Europa: “Vou sentar aqui e assim vamos conversando enquanto esperamos o embarque”. Nunca a tinha visto na vida e esse tipo de abordagem poderia ser estranho se aquilo não fosse uma viagem. Mas em dez minutos já tínhamos contado nossa vida inteira uma a outra e ainda confidenciei projetos futuros que nem minhas amigas mais próximas sabiam. Nos separamos durante o voo mas nos reencontramos na imigração, seguindo para a esteira de bagagens e então nos despedindo depois de uma troca de instagrams. Durante aquelas horas de viagem, Denise foi a minha melhor amiga.

Assim como o venezuelano que me acompanhou durante a caminhada por Machu Picchu, me ajudando com as fotos e contando sobre seu país. Assim como a Nath e a Deborah que tomaram um porre comigo numa balada de Cusco e são minhas amigas até hoje. Assim como o JP me mostrou uma Minneapolis que nem morando lá por quatro anos eu conhecia. E o Adrien que me levou para comer ostras e tomar vinho num lugar qualquer de Paris. E todas aquelas pessoas que eu encontrei por aí e tornaram as minhas viagens mais especiais por esse encontro acidental.

A vontade que dá é de colocar todo mundo dentro da mala e trazer de volta pra São Paulo para que essa amizade não acabe nunca (teve um que eu até trouxe). Mas Vinícius de Moraes, que foi mais inteligente do que eu, já ensinou que a vida é a arte do encontro mesmo com tantos desencontros pela vida. E eu prefiro que esses encontros aconteçam mesmo que durem por vinte minutos. Sem eles, eu não saberia nada sobre viajar.

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Foto: arquivo pessoal da autora