O problema não é quem dá carona. O problema é quem mata.
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O problema não é quem dá carona. O problema é quem mata.

amandanoventa

06 Novembro 2017 | 08h15

Desde que voltei a morar no Brasil eu optei por não ter carro. Primeiro porque o custo é alto e segundo porque não sinto necessidade de tê-lo morando em uma região central de São Paulo.

Meu pais moram no interior do estado e, assim, sempre me virei bem utilizando o ônibus. Mas aí surgiram os grupos de carona no Facebook que me pareceram uma ótima alternativa para chegar bem mais rápido e fácil do que viajando de ônibus.

Nesses meus anos de carona já rolou de ter gente com bom papo, gente que não conversa, gente com música que eu não gosto, outros com músicas legais e gente que espreme três pessoas no banco de trás.


E já estive numa situação bem parecida com a da Kelly, a menina que foi morta na semana passada ao dar carona para um homem do grupo de caronas de whatsapp. Cheguei no ponto de encontro e o motorista, homem, me contou que a outra pessoa havia desistido. Fomos eu e ele sozinhos no carro por 220 quilômetros.

Quando eu li a história da Kelly, a primeira coisa que me perguntei foi porque ela não desistiu de dar carona quando viu que só o homem iria. Mas aí lembrei da minha própria história. Por que eu não desisti na hora que o motorista me avisou que só iríamos eu e ele?

Parei esse texto por vinte minutos para tentar responder a pergunta acima e a melhor resposta que consigo ter é a de que eu sempre achei que o perigo, o estupro, a morte é algo que acontece longe de mim.

Mas, por coincidência, na mesma semana do caso da Kelly eu descobri que conheço um estuprador. Um homem que já frequentou a minha casa. Ali, bem perto de mim. Até me embrulhou o estômago quando soube. No mês passado também descobri que me safei de outro estuprador. Aquele que abordava mulheres na região dos Jardins em São Paulo dizendo que era produtor da globo? Quatro anos atrás eu dei mais de vinte minutos de conversa pra esse cara enquanto ia do trabalho pra casa. Achei sua história mal contada, mas mesmo assim ele viu onde eu morava. Se tivesse me apontado uma arma como fez com tantas outras mulheres, eu teria sido mais uma vítima.

É a violência bem perto de mim e eu – educada, viajada – sempre achando que nada vai acontecer. Eu nunca fui diferente ou menos ingênua do que a Kelly.

É por isso que não dá pra dizer “poxa, mas pegar carona sozinha com um homem?!”. Porque na teoria toda mulher ouviu a vida inteira que não deveria. Mas, na correria do dia-a-dia, o perigo parece algo distante. A Kelly, assim como eu e tantas outras pessoas, já usava esse esquema de carona há tempos e no fundo não há nada de errado com isso (ou pelo menos não deveria haver. Assim como andar sozinha pela rua tarde da noite ou usar a roupa que quisermos). O errado é estuprar e matar. Ou já invertemos os culpados?

Eu vou parar de usar os grupos de carona, mas a gente ainda vai morrer muito. A gente ainda vai ser muito violentada. Só porque estamos acreditando nas pessoas.

Amanda Noventa escreve toda segunda-feira. Acompanhe suas viagens pelo instagram em @amandanoventa e pelo Facebook e Youtube em Amanda Viaja.

 

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