‘Ele arrombou a porta do meu quarto e me agrediu com uma faca em mãos’

‘Ele arrombou a porta do meu quarto e me agrediu com uma faca em mãos’

Você está acostumado a ler aqui minhas histórias de viagens. Hoje, peço licença para contar a história da Ana*

Mari Campos

08 Março 2018 | 03h00

Foto: Arte/Estadão

Geralmente você lê sobre minhas viagens aqui, mas hoje vou emprestar minha coluna para a Ana*. Ela é uma das mulheres vítimas de violência diariamente no Brasil. É uma das milhares de mulheres que ao buscar ajuda não encontram acolhida – se deparam com ainda mais violência. Entender a dimensão da violência contra a mulher é urgente e diz respeito a todos – homens e mulheres.

O texto a seguir aborda violência contra a mulher.

Meu nome é Ana, muito prazer. Eu tinha 26 anos e morava em São Bernardo do Campo quando conheci o Marcelo durante uma temporada na praia, através de uma amiga em comum. O rolo deu certo, namoramos por sete meses. Fiquei grávida sem termos planejado, resolvemos nos casar e, quando o bebê completou seis meses, nos mudamos para a praia. Juntamos todas as nossas economias e compramos uma casa de madeira em Ubatuba.


Não foi um começo fácil, não; estávamos sozinhos, longe das famílias, criando um bebê; mas fomos conseguindo nos manter com a venda de roupas e um patrocínio que o Marcelo recebia para surfar. Só que não demorou muito para começarmos a discutir. Marcelo tinha a terrível mania de chamar minha atenção sempre na frente de outras pessoas e eu me sentia constantemente humilhada e infeliz, andava com a auto-estima baixíssima. O tempo passou, as brigas ficaram cada vez mais sérias até que, quando nosso filho completou 5 anos, decidi que era hora de me separar.

Cheguei a procurar um advogado, mas confesso que voltei atrás e desisti da separação, esperando que a situação entre nós dois melhorasse. Mas, ao contrário, com o passar do tempo as coisas pioraram: ele começou a mentir com frequência, inventar histórias (“o carro quebrou”) e vira e mexe voltava pra casa só no dia seguinte quando ia vender roupas em Trindade e Paraty. Até que num final de ano ele foi para Trindade e só voltou para casa sete dias depois, completamente drogado e alcoolizado. Discutimos, peguei tudo que era dele e coloquei em outro quarto. Avisei que tinha chegado ao meu limite, que acabava ali, e me tranquei no meu quarto.

Ele não aceitou e partiu para a agressão física. Foi uma briga feia: ele arrombou a porta do meu quarto e me agrediu com uma faca em mãos. Com meu filho, já com 14 anos, consegui desviar e me tranquei em outro cômodo; conseguimos escapar no dia seguinte, escondidos, para fazer o primeiro B.O. que fiz contra ele. Marcelo pegou suas coisas e se mandou para Trindade.

Só que, de tempos em tempos, ele aparecia em Ubatuba na companhia de desconhecidos, me intimidava, pedia dinheiro. Estava bastante envolvido com drogas. Apareceu um dia chorando e pedindo ajuda; com alguns amigos, conseguimos interná-lo em uma clínica de recuperação por 3 meses. Quando ele saiu da clínica, pedi formalmente o divórcio.

Desta vez ele aceitou, mas pediu para morar na edícula da casa de Ubatuba pois ele não tinha para onde ir. Pouco tempo depois, levou uma nova mulher para morar com ele. E foi bem nessa época que as agressões recomeçaram: xingamentos, discussões e humilhações constantes. Eu tinha começado a namorar, mas nem cogitava levar meu namorado em casa; morria de medo do que o Marcelo poderia fazer se o visse.

Com o passar do tempo, a relação do Marcelo com a nova mulher também desandou; eles se agrediam constantemente, ela se mandou e percebi que ele estava novamente envolvido com drogas. Começou a dar festas em casa para estranhos quase todo dia e, quando eu estava fora trabalhando, ele aproveitava para roubar e vender tudo o que encontrasse dando bobeira no quintal, de panelas a roupas que secavam no varal.

Foi quando fiz o novo B.O. e, com a ajuda da família, conseguimos interná-lo novamente por sete meses. Quando ele saiu da clínica, eu já tinha conseguido uma medida protetiva para mantê-lo afastado. Mas a verdade é que não adiantou: ele mandava um amigo vir me intimidar constantemente com xingamentos e fazendo ameaças caso eu não retirasse a medida. E vez ou outra aparecia tentando invadir a casa. Em uma destas vezes, tomei coragem e chamei a polícia; ele foi preso em flagrante. Libertado pouco tempo depois, veio novamente me ameaçar; chamei a polícia novamente e hoje faz três meses que ele está preso.

Confesso que, hoje, sabendo que ele está atrás das grandes, tenho conseguido dormir; mas ainda temo muito pela minha vida, porque sei que um dia ele será solto novamente e virá mais uma vez atrás de vingança.

Entender o tamanho deste problema é urgente e diz respeito a todos nós. Informe-se, apoie e denuncie. Outras colunistas do Estadão também cederam hoje seus espaços para publicar histórias reais como essa. Leia mais histórias aqui. #DeUmaVozPorTodas

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade da vítima e demais envolvidos.