Gorilas em Ruanda: para (muito) poucos

Gorilas em Ruanda: para (muito) poucos

Mari Campos

28 Junho 2017 | 19h51

Crédito: Wilderness Safaris

Na última segunda-feira, foram abertas oficialmente as portas de um dos mais internacionalmente esperados lodges dos últimos tempos: o Bisate Lodge, no Parque Nacional dos Vulcões em Ruanda, lar de gorilas. O Bisate é mais nova empreitada da premiada Wilderness Safaris, uma rede de lodges africanos cujo trabalho eu acompanho há bastante tempo e respeito muito (apesar de nunca ter me hospedado em nenhum deles).

A propriedade ultra-sustentável a duas horas e meia de carro desde o aeroporto da capital Kigali fica espalhada em 27 hectares com a mais variada topografia e vegetação (incluindo o reflorestamento que estão promovendo desde o início da construção) e tem apenas seis exclusivíssimas suítes (todas construídas unicamente com materiais da própria região) espalhadas montanha acima. Os mimos são inúmeros e as acomodações parecem (pelas fotos e pelos primeiros relatos internacionais que chegam) oferecer um nível de conforto absolutamente impensável para a região até alguns anos atrás – com isolamento compulsório, já que nada de wifi por ali, por exemplo.

Crédito: Wilderness Safaris

A ideia do Bisate Lodge é não apenas oferecer uma opção luxuosa de acomodação em área tão remota, mas também a possibilidade de explorar muito mais a região em si (com trekkings, visita a povoados vizinhos etc) do que simplesmente riscar os gorilas da sua bucket list e ir embora – o que poderia contribuir bastante para a economia dos vilarejos do entorno.

Estar frente a frente com uma família selvagem de gorilas africanos está na minha listinha de desejos viajantes, assim como provavelmente na de muitos de vocês. Hoje, apesar de serem a única espécie de primatas no mundo que de fato aumentou sua população nos últimos anos, são menos de mil gorilas no mundo todo (segundo a International Union for Conservation of Nature).

Por isso mesmo a interação com os gorilas na Ruanda tem sido severamente controlada. Apenas um grupo de oito pessoas por dia tem permissão para se aproximar de cada família de gorilas, sem exceções. Ou seja, no Parque Nacional dos Vulcões, com doze famílias de gorilas vivendo na área, apenas um máximo de 96 pessoas por dia tem permissão de chegar perto dos animais por um máximo de 60 minutos e pronto. Mas bem na semana passada, o governo local simplesmente dobrou a taxa de permissão para avistamento dos gorilas no Parque Nacional Volcanoes. A taxa agora passou para US$1500 por pessoa para uma única hora de interação com os gorilas.

Crédito: Wilderness Safaris

O preço para chegar pertinho de um deles sempre foi deliberadamente alto, com o intuito de realmente limitar ao mínimo possível a quantidade de turistas que poderia chegar próximo aos mesmos – já que, ultra sensíveis, os gorilas podem ficar verdadeiramente estressados com muita gente ao redor e, como animais selvagens, não deveriam mesmo conviver muito com humanos. Parte da renda obtida com as permissões (além de pagar guardas, rangers, veterinários e o próprio monitoramento dos gorilas) é revertida para melhoria de condições das comunidades e vilarejos da área em questão, incluindo abertura de novas trilhas, construção de estradas, provisão de água potável, centros médicos etc.

Nos últimos anos, pós guerra civil e com um país limpo e seguro, a Ruanda recebeu o maior número de “gorilla tourists” do mundo por ano – mesmo cobrando as taxas mais altas para tal turismo, em comparação com a Uganda e o Congo, por exemplo. Até então, mesmo com o valor de 750 dólares por pessoa por uma hora de interação, a procura pelas permissões sempre foi imensa (feita através de operadores, hotéis ou mesmo diretamente no RDB, Rwanda Develpment Board), com uma antecedência mínima requerida de cerca de 3 meses. Alguns turistas chegavam a comprar duas permissões (!) para encontrar-se em dois dias seguidos com os gorilas.

A conversa sobre sustentabilidade, acessibilidade, dieitos e exclusividade relacionada a isso seguramente daria pano pra manga e para muitos posts. Mas se você acha que dobrar o valor da permissão deve diminuir a procura pelos “gorilla trekkings”, meu pitaco: duvido muito. O próprio Bisate Lodge já está lotado até final de setembro.

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