Luxo na aventura

Luxo na aventura

Mari Campos

07 Abril 2017 | 15h00

Crédito: Mari Campos

Crédito: Mari Campos

Os puristas que me desculpem, mas nunca concordei com a ideia de que a aventura em meio à natureza só pode acontecer em situações mais extremas, sem um mínimo de conforto. Muito pelo contrário: sempre fui partidária de me jogar na aventura ao longo do dia mas termina-lo sempre com, pelo menos, o conforto de uma incrível cama e um excelente chuveiro. Não consigo conceber aventura e conforto como ideias excludentes.


Por isso mesmo, sempre fui fã de carteirinha de lodges que souberam aliar o prazer da aventura com o prazer do conforto em boa hospedagem e boa mesa, hoje felizmente presentes em tantas regiões do planeta.  E o Chile há décadas é território fértil para eles, oferecendo, sem exagero, algumas das melhores experiências do gênero.

Tudo começou, a bem da verdade, ainda nos primeiros anos da década de 90, com a fundação do grupo explora (assim mesmo, com letra minúscula), que hoje opera três hotéis no país (Atacama, Patagônia e Ilha de Páscoa), um no Peru (Vale Sagrado) e travessias impressionantemente cheias de conforto a destinos como Salta, na Argentina, e Salar de Uyuni, na Bolívia. A proposta do grupo sempre foi mesclar a exploração profunda do entorno de suas propriedades com desenvolvimento sustentável e o conforto de seus lodges em sistema tudo incluído. Estive em outubro do ano passado no novo explora Valle Sagrado no Peru e escrevo este post diretamente do explora Atacama, reaberto em dezembro passado e posso dar testemunho: a filosofia do grupo funciona muitíssimo bem na prática.

Crédito: Mari Campos

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As explorações estão sempre aliadas ao constante desenvolvimento de novas rotas; hoje, são mais de 3600km possíveis em mais de 100 passeios diferentes oferecidas aos hóspedes. Ao longo dos dias, a gente explora a região em trekkings guiados de diferentes níveis de dificuldade, tours em bicicleta e até passeios em van, exigindo dos nossos corpos dedicação e adaptação a níveis de altitude, umidade, vento, calor ou frio bem diferentes aos que estamos acostumados – mas ao final do dia voltamos para um ambiente cheio de conforto, com boa mesa e um serviço às vezes tão cálido e inclusivo que não é raro ver hóspedes e funcionários tornarem-se amigos.

A fórmula de ter passeios, refeições, bar aberto, transfers e hospedagem de alto padrão incluídos no “pacote” deu tão certo que outros hotéis e grupos seguiram (com suas próprias adaptações e filosofias) o mesmo modelo operacional, aliando as explorações diárias com lodges cheios de conforto em sistema tudo incluído, como os também ótimos Tierra Hotels (Patagônia, Atacama e Chiloé) ou o Hotel Remota (Puerto Natales), por exemplo, nos quais já tive o prazer de me hospedar repetidas vezes. E os brasileiros representam fatia gigantesca da cartela de hóspedes de todos eles.

O grupo Awasi, que recentemente completou dez anos, soube, a exemplo dos melhores lodges sul-africanos, levar essa mescla da extrema aventura com o luxo na hotelaria a novos patamares. Suas unidades na Patagônia chilena e no deserto do Atacama, criadas a partir dos desejos de um grupo de amigos, oferecem quartos todos em estilo villa, espalhados por imensas propriedades em cantos remotos, cada qual com seu próprio carro e guia/motorista para explorar a região da maneira mais customizada possível. A cada noite, a gente decide com o guia o que, a que horas e como quer fazer no dia seguinte, sejam trilhas extremas ou simples safáris fotográficos – e se quiser mudar de ideia no meio do passeio, também tudo bem, já que os mesmos são sempre privativos.

Crédito: Mari Campos

Crédito: Mari Campos

O restaurante de alta gastronomia não perde a bossa da culinária local e leva selo Relais&Chateux – e serviço de quarto e frigobar também estão sempre incluídos. No Awasi Patagônia, em que me hospedei na semana passada, são apenas 14 suítes 100% independentes espalhadas pela propriedade Tercera Barranca, todas com vista desobstruída para as torres del Paine do living, da cama, da banheira e até do ofurô externo que cada uma delas tem.

O diferencial do grupo também deu tão certo que uma terceira unidade será aberta ainda neste 2017 em Iguassu. Em todos eles, a qualidade da comida, dos vinhos e demais bebidas servidas, do serviço em geral e a exclusividade dos passeios justificam integralmente o quão mais os Awasi cobram em relação aos outros lodges all-inclusive operados nos mesmos destinos. E que fique claro: apesar do altíssimo padrão de serviços, gastronomia e instalações, nem por isso se perdem ali a calidez, a amabilidade e a informalidade do staff (como a adorável Macarena, maitre do restaurante no Awasi Patagonia, que do café da manhã ao jantar sabia exatamente como agradar cada um de seus hóspedes).

Pessoalmente, já tendo me hospedado em diferentes hotéis na Amazônia brasileira, sonho com o dia em que o alto custo dos nossos hotéis de selva virá aliado a um serviço de alta qualidade e instalações confortáveis como oferecem estes lodges chilenos, por exemplo – muitos deles instalados em regiões tão remotamente complicadas quanto os que margeiam os nossos rios amazônicos.