O grande Mr. Moser

O grande Mr. Moser

Mari Campos

28 Maio 2017 | 11h05

Mr. Moser timidamente posando para mim na suíte Imperial do The Imperial Vienna. Crédito: Mari Campos


Well, tudo o que for decente, nós conseguimos fazer”. Foi assim que Michael Moser me respondeu, sorriso entrecortado,  quando questionei sobre pedidos e exigências excêntricas de seus hóspedes. Moser trabalha há mais de 35 anos como concierge do histórico Hotel Imperial de Viena e já recebeu pessoalmente uma infinidade de reis, rainhas, presidentes e celebridades. Discreto como convém aos grandes concierges, Mr. Moser manteve a fala calma e o riso quase contido enquanto conversou comigo longamente na tarde da última sexta-feira.

O Hotel Imperial de Viena é o mais icônico hotel da cidade: funciona como hotel desde o século XIX (exceto enquanto funcionou forçadamente como quartel-general para as forças soviéticas durante a Segunda Guerra) e hoje é parte da prestigiosa The Luxury Collection. Estou realmente positivamente surpresa com minha hospedagem aqui – nem todo hotel com essa carga de “ícone” numa cidade consegue realmente ser tão fiel à lenda (o hotel produz a também célebre Imperial Torte, quase tão famosa em Viena quanto a Sacher Torte). O serviço é primoroso em todas as esferas do hotel e suas suítes (muitas recentemente renovadas) carregam boa parte da história que passou pela cidade.  Da realeza britânica (Charles, Diana e a própria Rainha) às celebridades hollywoodianas e do rock e pop (inúmeros atores e atrizes, Charles Chaplin, os Rolling Stones todos e dois dos Beatles, para dizer o mínimo), todos os special guests do Imperial Vienna estão registrados desde o princípio nos guest books hoje guardados literalmente num cofre – e isso inclui também nomes controversos como Gaddafi, Mussolini e o próprio Hitler.

Com amabilidade, memória e discrição extremas, Mr. Moser é a perfeita tradução do hotel – tanto que caiu nas graças de Wes Anderson enquanto estava hospedado ali e o inspirou em seu The Grand Budapest Hotel. O diretor ficou encantado com o célebre concierge do Imperial (The Grand Hotel em outros tempos) e o convidou a fazer uma ponta no filme; diante da recusa, viu-se obrigado a homenagea-lo mesmo assim no longa (há momentos em que o nome “Moser” é citado, como na fala “mas Mr. Moser vem fazendo assim há anos”).

Moser segurando parte do arquivo de Guest Books que mantém num cofre do hotel. Crédito: Mari Campos

Michael Moser é genuinamente cativante, com aquele conhecimento absurdo sobre cada meandro da cidade que só os melhores concierges são capazes de ter (já falei aqui sobre essa figura essencial nos grandes hotéis). Seus pais tinham um pequeno hotel e Moser aprendeu logo cedo sobre a importância de receber bem e prestar genuína atenção em cada hóspede. Hoje, é declaradamente uma das razões da fidelidade de muitos hóspedes que voltam a se hospedar no hotel – e é do tipo que recusa um convite para sentar-se no melhor assento na espetacular Ópera de Viena porque “não pode sentar-se num assento melhor do que o que conseguiu para seu hóspede”.  Como as chaves do Imperial são à moda antiga e muito pesadas para carregar por aí, todo hóspede passa pela mesa do concierge para deixa-las e retira-las a cada saída/entrada do hotel – encorajando diálogos de todo tipo. Assim começaram muitas das amizades que já levaram Moser a ser posteriormente convidado por seus hóspedes para viagens, jantares, performances e até casamentos ao redor do globo.

Crédito: Mari Campos

Hoje afastado da conciergerie do dia-a-dia, Moser está ajudando o hotel a descobrir quem foram hóspedes que assinaram os guest books do hotel nos primórdios da propriedade e dos quais não se tem nenhuma referência mais específica, num árduo trabalho de pesquisa. Mas ainda deixa escapar uma ou outra risada mais gostosa quando conta histórias como tudo o que fez quando teve Michael Jackson incognito por semanas no hotel (incluindo o chef do restaurante do Imperial conseguir rodar com o  cantor em seu carro por um dia inteiro para que o mesmo encontrasse um castelo à venda no interior do país, sem que ninguém se desse conta).

Billy Joel tocando piano para os hóspedes no bar, Prince fazendo um micro-concerto repentinamente no lobby e exigências de outros hóspedes célebres (incluindo imensos pianos instalados nas mais diferentes suítes, um pastor alemão comprado em cima da hora e atirar pétalas de rosas do alto de um helicóptero sobre o hotel para um pedido de casamento) também estiveram dentre as deliciosas anedotas saudosamente contadas por Moser em nossa descontraída conversa. Adoro a cidade, fico extremamente feliz a cada vez que volto, e agora acrescento: ele virou, em si mesmo, mais uma das encantadoras atrações de Viena para mim.

 

 

p.s.: espia lá no meu instagram @maricampos mais sobre esse meu delicioso retorno à linda Viena 🙂