Para ir além de Ushuaia

Para ir além de Ushuaia

Mari Campos

31 Outubro 2017 | 16h18

O trecho final do trekking, já pela praia, em direção à carcaça do Desdemona: ninguém mais à vista. Crédito: Mari Campos

 

Sou encantada por Ushuaia desde a primeira vez que pisei por aquelas bandas. De lá pra cá, já foram diversas visitas diferentes a esta incrível cidade no “fim do mundo” – incluindo uma especialíssima, quando zarpei de lá diretamente para a longínqua Antártica, a viagem de uma vida. Mas a verdade é que a cada vez que volto para a Terra do Fogo, mais gosto e me encanto com a região. Para mim, tem o mesmo tipo de beleza selvagem e arrebatadora que tanto me encanta na Patagônia chilena. E, claro, a cada vez que volto, tento fazer passeios diferentes por lá (aliás, dá para ler sobre meus passeios favoritos por aquelas bandas neste post aqui).

Já contei aqui, na semana passada, sobre  experiências fora da curva para comer (muito) bem em Ushuaia. Eu realmente sentia falta de ter experiências gastronômicas boas de verdade por aquelas bandas, e isso finalmente foi resolvido com as duas experiências memoráveis que cito no texto em questão.


Mas hoje eu quero falar sobre  o verdadeiro luxo que é sair do óbvio num passeio, ir além do programado e vivenciar situações realmente autênticas quando visitamos um lugar. Foi isso que aconteceu comigo em um dos passeios que fiz nesta última viagem: o tour Cabo San Pablo + Rollito, que vai muito além dos passeios tradicionais em Ushuaia e nos leva a conhecer, de fato, mais sobre a Tierra del Fuego em si.

O novo tour desenvolvido pela Tierra Turismo é  longo, de literalmente dia todo – sai cedo e volta já à noite, podendo chegar a até 12h de duração (dependendo do ritmo do grupo). O passeio é feito em grupo pequeno, de no máximo 6 pessoas por carro (4×4), e envolve bastante tempo de estrada. Sei que para algumas pessoas muito tempo dentro do carro incomoda, mas eu me encantei inclusive por essa parte: ao longo do trajeto até a ponta de terra conhecida como Cabo San Pablo, atravessamos a Cordilheira e fomos nos fartando dos mais distintos tipos de paisagens, incluindo até mesmo a zona de transição pré-estepe, o ecotono.  Vimos lagos, montanhas, desfiladeiros, bosques, descampados imensos, represas de castores, neve, chuva, sol, oceano – com direito a paradinhas aqui e ali, seja para tirar foto ou para tomar um café. Ao chegar a Cabo San Pablo, um montanha com um antiquissimo farol cujo penhasco fica debruçado sobre o oceano Atlântico, o 4×4 foi estacionado e seguimos por uma pequena trilha (de fácil dificuldade) para chegar até o farol.

O farol, já quase em ruínas, fora de uso, tombado como uma mini Torre de Pisa, resistiu simbólica e bravamente aos efeitos do tempo e dos ventos.  Do alto do cabo, a paisagem é arrebatadora: de um lado, a estepe patagônica e estâncias gigantescas, sem qualquer forma de construção à vista; do outro, uma faixa imensa de penhascos e areia banhada pelo Atlântico, com direito à imensa carcaça do navio Desdemona encalhada numa das prainhas.  Após longa parada para fotos lá do alto, a trilha segue então montanha abaixo até chegar à praia. Caminhamos pela praia de pedrinhas, as botas molhadas pelo mar que avançava, até a carcaça do Desdemona, que encontrou ali seu repouso há tantas décadas. As águas abriram um imenso buraco no casco e é possível literalmente “entrar” dentro da carcaça do navio para ver o que restou dele. À beira da praia, uma antiga “hospedaria” dos tempos de Perón totalmente abandonada e depredada.

Foi na praia mesmo que fizemos nosso breve almoço, num esquema ultra simples – um box lunch de empanadas e refri, sem qualquer pompa ou delícia gastronômica. O grande luxo ali era sermos os únicos turistas à vista em quilômetros e quilômetros; estivemos o tempo todo do passeio completamente a sós, absorvendo o silêncio, o ar puro, os fortes ventos e a paisagem tão selvagem mais intensamente do que esperavamos.

Quando eu pensava que nada mais poderia me surpreender depois de tanta beleza, entramos novamente no 4×4 e seguimos viagem por cerca de meia hora até a “Estância Rollito”, uma das muitas fazendas da Terra do Fogo. Ali, foi a proprietária Amy, uma adorável senhorinha argentina, que nos recebeu pessoalmente em suas botas sete léguas – estava trabalhando em sua estufa, que fez questão de nos mostrar em detalhes – “as pessoas não têm ideia do desafio que é fazer qualquer coisa crescer aqui neste fim do mundo”, contou exibindo orgulhosa flores, verduras e algumas poucas frutas e vegetais que andava cultivando.

Dentro da casa, sentamos à mesa da cozinha e ela preparou um café. Falamos da vida, de política, de novas tecnologias. Amy vive há décadas ali com o marido e a filha, cria alguns animais e usa também a estância como uma pousada low cost frequentada basicamente por turistas franceses. Com a fala calma e pausada típica das pessoas do campo, falou das dificuldades com internet e telefonia na região e como ficava incomodada quando ia “para a cidade” e via todo mundo tão dependente do celular.  Tomamos o café encorpado ali mesmo, na cozinha, enquanto nos servia biscoitos amanteigados que ela mesma tinha feito.

Enquanto fazíamos o longo caminho de volta, a luz do sol da tarde deu as caras, dando outra atmosfera para os cenários que tinhamos visto pela manhã com o céu nublado e chuviscos. A neve na estrada, que nos cobriu parte do caminho na viagem de ida, ao nos aproximarmos novamente de Ushuaia já tinha derretido quase que por completo e revelava contornos que antes não tinhamos visto. Eu mal podia acreditar que tinha visto tanta beleza e variedade de paisagens num único dia, numa simples viagem de carro com um trekking no meio do caminho. Foi o passeio mais bonito que já fiz por aquelas bandas.

 

 

 

Em tempo: o tour relatado aqui só acontece na alta temporada da Terra do Fogo, que vai de outubro a março.

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