Perrengues de viagem: todos temos

Perrengues de viagem: todos temos

Mari Campos

25 Outubro 2017 | 10h29

 

Dormir nesta plataforma em plena Grande Barreira: uma ideia linda que se revelou uma experiência de viagem inesquecível – mas negativamente. Crédito: Mari Campos

Em geral, planejo muito, muito mesmo!, minhas viagens. Viajo desde sempre, desde muito antes da democratização da internet (#véia) e sempre achei a parte do planejamento da viagem quase tão gostosa quanto a viagem em si. Leio muito, pesquiso, troco ideias com outros viajantes, faço meio que uma gerência de risco e costumo ter roteiros bem redondinhos mesmo. Mas, claro, do mochileiro ao viajante de luxo, todo turista que se preze já teve seus perrengues e gafes mundo afora.

Nestes últimos dias, vi alguns vídeos de uma campanha nova do consolidador Hoteis.com com o comediante Fabio Rabin (dá pra ver no youtube aqui), falando sobre boas e más ideias de viagem enquanto ele mesmo vai visitando alguns destinos (por agora, Rio de Janeiro). E então lembrei de várias “más ideias”, equívocos e presepadas que já me aconteceram mundo afora – como comer justamente com a mão esquerda na primeira vez que visitei um país árabe e fui num restaurante em que se comia com as mãos (para quem não sabe, na maioria deles se come com a mão direita, já que a mão esquerda está associada com a ideia de, well, se limpar).  Quem nunca? 🙂


Mas me lembrei mesmo foi de casos de péssima ideia ligados à hotelaria. Sempre fui muito exigente com a escolha dos hotéis em que me hospedo e, felizmente, foram raras as vezes em que me decepcionei. Nas viagens a trabalho, tenho casos históricos de péssimas ideias (que obviamente não foram minhas), incluindo um chalé com a calefação quebrada pertinho de um dos glaciares de Aysén e um borgo-fantasma na Toscana. Mas nas minhas viagens a passeio também já dei minhas bolas-fora, sim.  Uma vez, num final de ano, eu e minha irmã fomos a Buenos Aires e ela achou que eu precisava “parar de ser esnobe” e ter enfim uma experiência num hostel (ainda que num quarto privado, obviamente). No site, o hostel parecia um charme, cheio de design (no melhor estilo dos albergues ganhadores de prêmios de Lisboa hoje em dia), instalado num casarão antigo em teoria “revitalizado” em Palermo. Quando chegamos (tarde da noite, por sinal), tratava-se de um casarão caindo aos pedaços, quartos imundos, nada de interessante sequer nos ambientes comuns e banheiros compartilhados que não trancavam – o horror, o horror!, como diria Joseph Conrad. Na mesma noite começamos a pesquisar online outras opções e na manhã seguinte já nos mudávamos para outro local BEM mais interessante no mesmo bairro.

Em Cingapura: tão bonitinho por fora, tão mal cuidado por dentro. Crédito: Mari Campos

Anos depois, quem fez a burrada fui eu mesma: mea culpa, minha tão grande culpa. No afã de encontrar um período para viajar com milhas em business na maravilhosa Singapore Airlines, acabei não vendo que duas das minhas noites em Cingapura coincidiam justamente com o Grande Prêmio de Fórmula 1, o período mais caro da hotelaria local. Com os preços nas alturas, resolvi optar por um hotel boutique novo em Chinatown. Na web, parecia uma graça, cheio de design e bossa – e, mesmo a 230 dólares a noite, o local EM NADA se parecia com o das fotos do site. Era o menor quarto no qual já me hospedei na vida, zero design, e o banheiro, igualmente minúsculo, tinha o chuveiro literalmente em cima do vaso sanitário. A esse preço, posando de hotel de design? No way – também me mandei dali assim que consegui, duas noites depois.

Meu case de uma very very má ideia de viagem foi no ano passado. Em uma nova visita à grande barreira de corais australiana, me encantei com a ideia de passar a noite em uma plataforma instalada literalmente em meio à Grande Barreira, no  arquipélago de Whitsundays. Com custo bastante elevado, o site prometia mergulhos fabulosos, boa gastronomia e “uma noite inesquecível sob as estrelas da Grande Barreira”. Aham. Mergulhos e snorkeling foram muito bons, é claro; mas com o cair da noite veio a vibe Hitchcockiana da coisa – a plataforma foi subitamente atacada por uma quantidade impressionante de pássaros assim que ligaram a grelha para fazer nosso peixe do jantar (e ali, já aviso, a “boa gastronomia” também passou longe).  Eram muitíssimos, frenéticos, algo surreal. O local onde comíamos era ao ar livre e os pássaros davam rasantes sobre nossas cabeças o tempo todo, tentando arrancar a comida dos nossos pratos, das nossas mãos, de onde fosse. Uns três ou quatro se chocaram com a parede atrás da grelha e, JURO, caíram mortos ali mesmo. Começou a chover e eu e os demais turistas que pernoitaram ali decidimos abortar a missão jantar, ir dormir e tentar mergulhar logo que o sol nascesse. Subimos para o deck onde as barraquinhas individuais estavam instaladas e, à luz de lanternas individuais, buscamos o alento do abrigo. Ledo engano: a chuva logo se transformou em tempestade, com ventos tremendos chacoalhando as pequenas barracas e um mundo de água caindo do lado de fora e tentando invadir o lado de dentro (conto mais sobre este case aqui). Noite em claro e, obviamente, sem ver uma única estrela no céu da grande barreira.

Por isso, nunca é demais repetir: pesquisem, pesquisem, pesquisem antes de reservar qualquer opção de hospedagem.  Independente do orçamento envolvido, leiam o máximo que puderem e troquem ideias antes de bater o martelo – sempre há opções legais de hospedagem para os mais diferentes orçamentos, é só pesquisar bem. Uma viagem PRECISA ser feita de boas ideias para gerar boas lembranças. Juro que agora aprendi a lição 😛