Precisamos falar sobre hotéis boutique

Precisamos falar sobre hotéis boutique

Mari Campos

19 Junho 2017 | 19h02

Os quartos impecáveis -todos idênticos – do Awasi Patagonia. Crédito: Mari Campos

Foi ainda nos anos 80 que o termo “hotel boutique” entrou no universo da hotelaria, utilizado pela primeira vez para descrever o recém inaugurado Morgans Hotel, uma ousada parceria de Ian Schrager e Philippe Starck.

Hoje, são incontáveis os estabelecimentos – inclusive no Brasil – que se valem do termo como uma espécie de chancela, embora não haja, de fato, uma chancela para qualifica-los ou controla-los.

Os conceitos que em geral definem um hotel boutique são propriedades pequenas, com um máximo de 100 quartos, instalações de charme ou design, com personalidade e personalização de serviços. Ausência de espaços para eventos (para manter a intimidade/privacidade dos hóspedes), lobby-sem-cara-de-lobby e ambiente intimista também viraram recorrentes.


Mas, convenhamos, são conceitos subjetivos – tanto que Las Vegas, com seus monstruosos hotéis de mais de três mil quartos, ousa insistentemente chamar propriedades de redes como Four Seasons e Mandarin Oriental, com trezentos e tantos quartos cada, de “hotéis boutique” por lá. Ou um hotel no qual me hospedei recentemente em Valparaíso, no Chile – o Ultramar – que se vende como boutique mas seus quartos e seu padrão de serviços não diferem em nada de um albergue tradicional (apesar do excelente potencial que a propriedade poderia ter, recuperando um antigo armazém).

Algumas associações do gênero – como a americana BLLA (Boutique & Lifestyle Lodging Association) – vêm lutando há alguns anos para “normatizar” o uso do termo, mas ainda sem sucesso. No fundo, o público viajante nunca soube efetivamente o que faz um hotel ser chamado de boutique – e não é raro ver tanto hotéis exageradamente simples ou exageradamente grandes se apropriando do termo equivocadamente.

Hoje, o principal público dos hotéis boutique é composto pelas gerações X e Y, que prezam a experiência completa da hospedagem mais customizada em detrimento dos uber mimos dos grandes hotéis de luxo, mas fazem questão de hospedar-se com qualidade e conforto.

Banheiras com vista em todos os 13 quartos do Tintswalo Atlantic, na Cidade do Cabo. Crédito: Mari Campos

No Brasil, temos uma infinidade de hotéis que se dizem boutique (valendo-se do nosso mercado sempre tão aspiracional) muitas vezes cobrando diárias bastante acima das cobradas por hotéis de luxo. Muitas de nossas pousadas se enquadrariam muito bem também neste perfil. Mas verdade seja dita: temos pousadas incríveis, como a Provence Cottage (Monte Verde – MG) e a Casa Turquesa (Paraty-RJ), por exemplo, que souberam como poucas propriedades no mundo investir pesado na ideia de exclusividade, privacidade e customização de atendimento – e, mais importante, souberam também manter a qualidade de serviço coerentemente ao longo do tempo. Deveriam servir de inspiração para muito hotel boutique por aí.

Em viagens ao exterior, conheci excelentes hotéis boutique que, de fato, acho que se encaixam muitíssimo bem no verdadeiro conceito do termo. Pensando nos melhores do último ano, falaria de novo dos já citados aqui hotéis da Tintswalo Lodges na África do Sul; o adorável Athol Place em Joanesburgo; do ousado The Henry Jones Art Hotel em Hobart, na Tasmania; do delicioso Lindrum Hotel, em Melbourne (membro MGallery, uma chancela boutique da qual gosto muito); do incrível Awasi Patagonia, sobre o qual também já falei aqui; do ultra charmoso Le 5Codet, em Paris; e, mais recentemente, do estilosíssimo The Darcy Hotel, em Washington (parte da sempre certeira Curio Collection).

Em comum, poucos quartos, ambientes intimistas cheios de estilo e personalidade, design caprichado e absolutamente condizente com o ambiente em que estão inseridos e serviço invariavelmente personalizado. Porque customização, mais do que nunca, é capaz de fazer toda a diferença numa experiência de hospedagem. E, acredito, fará cada vez mais.

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