Quando o luxo é a aventura em si

Quando o luxo é a aventura em si

Mari Campos

05 Janeiro 2018 | 08h50

O Royal Clipper em plena navegação caribenha. Crédito: Mari Campos

Velas içadas diante de mim, sol se pondo no mar de um lado, arco-íris de outro  e o barco se movia tão suave e lentamente – impulsionado por motor e vento simultaneamente – que meus olhos, inebriados pelo estupendo cenário ao meu redor, mal percebiam a ilhota da vez se distanciando no horizonte. No final do ano passado eu embarquei num cruzeiro num dos maiores veleiros do mundo pelo Caribe, o Royal Clipper, em uma viagem com direito a muito banho de mar, finais de tarde surrealmente bonitos e, como todo dia chovia ao menos em parte do dia, arco-íris constantes.

O Royal Clipper, da armadora Star Clippers, não prima pelo luxo nem tem mordomias a bordo. As instalações são confortáveis e as cabines são bem equipadas, mas não há luxo nem nos espaços, no serviço, nas amenidades ou na gastronomia – e tampouco há oferta considerável de entretenimento a bordo. Não há sistema tudo incluído, o barco possui um único restaurante, café da manhã e almoço são sempre servidos num mesmo sistema de buffet e somente o jantar é à la carte (com pratos bem saborosos). Porque ali o grande luxo é a aventura da navegação em si, o prazer e a oportunidade de viajar em um veleiro à moda antiga, como se seguisse os passos de tantos exploradores e desbravadores de outros tempos (visto à distância nas ilhas, lembrava tanto as caravelas que chegaram ao Brasil como os barcos piratas que viviam de saquear a região). Muitos dos passageiros com os quais conversei eram apaixonados por barcos e navegações e estavam ali exatamente pelos 4 decks, 5 mastros, 42 velas e 134 metros de pura nostalgia do Royal Clipper.

O Caribe me pareceu ser mesmo o destino perfeito para navegar nele: com as águas sempre calmas, mesmo o veleiro tendo dimensões diminutas (são apenas quatro decks, e somente três deles para passageiros), a gente mal sente o barco se mexer (exceto quando imprime velocidade na primeira e na última noite, por Barbados ser tão afastada das demais ilhas). Como é pequeno (tem capacidade para um máximo de 227 passageiros), permite maior entrosamento entre os hóspedes, tem embarques e desembarques mais rápidos e pode também desembarcar seus passageiros em qualquer ilha, o que é mesmo um baita atrativo (a in-crí-vel Île des Saints, por exemplo, eu nunca tinha visto antes no itinerário de cruzeiro de qualquer outra embarcação).


Embarque inicial e desembarque final aconteceram em Barbados  e fiz escalas em Sta Lucia, Guadalupe, Antigua, St Kitts, Île des Saints/Les Saints (que é também parte de Guadalupe) e Martinica (deveríamos ter feito uma parada em Dominica que foi cancelada na véspera; a justificativa foi que a admnistração da ilha teria desistido em cima da hora de receber o veleiro por ainda não estar recuperada da passagem do furacão Irma).

Por do sol que parecia cronometrado antes de deixar St Kitts. Crédito: Mari Campos

Desembarcamos todo dia em uma ilha diferente, às vezes com duas paradas em locais distintos no mesmo dia, sempre fazendo uso apenas dos tenders que circulavam a cada meia hora (só aportamos mesmo para partida e chegada em Barbados). À exceção de Santa Lucia (que foi a parada menos interessante pela curta duração e pela região da ilha escolhida para o desembarque), todas as escalas davam opção tanto de descer numa cidade/vilarejo da ilha quanto de desembarcar diretamente em uma praia. Em quase todos os destinos (exceto Île des Saints/Les Saints e Martinica), o barco oferecia também um menu de excursões pagas à parte que contemplavam desde tours em van até passeios em barco, passeios de aventura etc. E esportes aquáticos – de caiaques e SUP a mini veleiros para o próprio passageiro pilotar – estavam sempre incluídos sem custos na prainha oficial do dia.

Em todos os portos, o Royal Clipper chamava a atenção: sua silhueta tão particular, mesmo com as velas constantemente todas recolhidas, era tão diferente de qualquer outra embarcação ao redor que parecia saída de um filme. Apesar de algumas escalas bastante curtas, os dias eram lindos; em todas as escalas consegui mesclar passeio pela ilha em si com longos banhos de mar. Mas todo final de tarde era o deck superior que ganhava status de celebridade: ficava cheio de passageiros enquanto as velas eram romanticamente içadas pela tripulação, pouco a pouco, uma a uma, para rumarmos lenta e suavemente ao destino seguinte – um ritual tão lindo que todo mundo voltava para acompanhar novamente no dia seguinte.

Os passageiros (eu incluída!) ficam tão fascinados com o barco e suas velas no dia-a-dia que a companhia até já criou um “evento” presente no calendário de todas as viagens: em um dos finais de tarde do itinerário, antes de zarpar, os passageiros são todos acomodados em dois tenders que ficam “passeando” ao redor do veleiro enquanto o mesmo iça todas as suas velas, nos dando a oportunidade de realmente ver, “do lado de fora”, a beleza e a elegância tão particulares desde tipo de embarcação em ação – com direito ao sol se pondo ao fundo, quase que cronometradamente (só faltava tocar a trilha sonora de 1492!). Um verdadeiro espetáculo, inesquecível.

 

 

p.s.: vou fazer um cruise review detalhado lá no MariCampos.com. Mas já aviso: não se assuste com os preços de tabela das viagens no site da Star Clippers; a companhia trabalha com descontos constantes e, na prática, o preço final pago pelo passageiro é bastante inferior (mesmo!) ao publicado no site.