Sobre retornos e surpresas

Sobre retornos e surpresas

Mari Campos

20 Abril 2017 | 08h18

Crédito: Mari Campos

Crédito: Mari Campos

Volto com extrema frequência a lugares que eu adoro – e sinto um prazer imenso, sem culpa, em visitar destinos que são velhos conhecidos. Concordo que há muito mundo por descobrir, e que eu poderia “já ter pisado em pelo menos o dobro de países em que já estive” – como me disse uma conhecida outro dia – se não “gastasse tanto do meu tempo e dinheiro voltando para os mesmos lugares”.

Não entenda mal: eu adoro conhecer novos lugares. Por mim, visitaria todos os países do mundo e todo ano coloco no meu mapinha mundi pessoal novos destinos também. Mas não viajo para contar em quantos territórios já pisei, ou com quantos carimbos enchi cada passaporte. Viajo pelo prazer de fazer novas descobertas (mesmo nas viagens a trabalho), e tenho o mesmo encanto sejam tais descobertas em novos destinos ou em velhos conhecidos. Voltar a um destino sem a “obrigação” das visitas turísticas, sem a “pressa de conhecer tudo” (nem a pressão) que comumente nos acomete numa primeira visita, é um dos mais preciosos luxos de viagem para mim.

Viajo todos os anos ao Chile, geralmente mais de uma vez. Pelo trabalho mas também porque o vejo como um dos países mais incríveis do mundo, com sua mistura de deserto, geleiras, lagos, vulcões, vinhedos, praia, vinho etc numa faixa territorial tão estreita.  Volto anualmente à Patagonia Chilena (um dos destinos mais arrebatadores para mim) com o mesmo encanto da primeira vez – e sempre visito uma estancia que ainda não conhecia, faço uma trilha que ainda não tinha experimentado, observo novos pássaros, vejo montanhas e quedas d’agua sob novos ângulos. As viagens nunca são as mesmas, nem somos nós ao retornarmos a um mesmo destino.

Embarquei no final de março para uma viagem curtinha de trabalho ao Chile para acompanhar de perto a vindima do Vale de Casablanca. O Vale é um dos passeios bate-e-volta mais gostosos e fáceis para quem vai a Santiago. Eu mesma já tinha percorrido a distância que em pouco mais de uma hora separa o vale da capital chilena diversas vezes.

Pelo itinerário do trabalho, visitei novamente algumas vinícolas que já conhecia e participei pela primeira vez da grande quermesse que montam na praça principal do vilarejo de Casablanca para celebrar a colheita e o começo da produção da nova safra de vinhos locais. Entre visitas mecânicas e visitas mais criativas, degustei novos vinhos, provei novos sabores, conheci gente nova, parei em novos mirantes para contemplar a paisagem.

Crédito: Mari Campos

Crédito: Mari Campos

Mas, justo no finalzinho da viagem, a última vinícola do meu itinerário era a boutique La Recova Wines, a menor de todas elas. Cheguei no final da tarde, o sol já baixando deixando as cores do local – a bela Quebrada del Pulgar – ainda mais intensas e bonitas. E fui recebida pelo proprietário e enólogo com a maior informalidade possível: David Giacomini é brasileiro, gaúcho, embora viva no Chile desde o começo da adolescência.

Com vinhos destacados pelo Descorchados, por exemplo, sua produção brancos e espumantes rende apenas cerca de dez mil garrafas anuais. Os tours são deliciosamente feitos de maneira customizada (com reserva prévia obrigatória), incluindo passeio pela propriedade, visita aos tonéis de produção e degustação à beira da piscina, com vista para as montanhas e um mar de vinhedos impressionante – e que pode incluir tapas ou ser devidamente harmonizada com um almoço completo.

Resumo da ópera: precisei visitar o Vale de Casablanca pela décima vez – literalmente – para me encantar pela menor, mais nova (os vinhedos foram cultivados em 2005 e a primeira vinificação aconteceu em 2014), mais limitada (produz unicamente Sauvignon Blanc em toda a propriedade) e provavelmente mais sustentável vinícola da região: David faz as intervenções ainda na planta para que não precise interferir no processo de produção de seus vinhos. E recomendo muito – tanto a visita e degustação na La Recova como a experiência de descobrir novas lindezas e encantos em destinos já conhecidos.

 

 

P.s.: Aproveitando o tópico chileno, para uma experiência perfeitinha pelo Vale, recomendo muito mesclar as visitas e tours com uma estadia ali mesmo, num dos hotéis boutique instalados dentro de vinícolas ou, ao menos, rodeados de vinhedos. Meu preferido é o adorável La Casona, de apenas oito quartos e serviço caprichadissimo, instalado num casarão colonial dentro da vinícola Matetic – me hospedei ali há anos e até hoje não encontrei hotel mais charmoso na região.

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