Ushuaia para comer

Ushuaia para comer

Mari Campos

22 Outubro 2017 | 17h35

O prato principal do menu degustação do delicioso Kalma. Crédito: Mari Campos

Faz muito tempo que defendo que turismo de luxo it’s all about experiência. Esqueça as luvas brancas e o rococó – serviço, customização e autenticidade são as moedas mais fortes neste mercado atualmente. Afinal, são as experiências mais autênticas que temos nos lugares que visitamos que se tornam mais inesquecíveis e marcantes no nosso retorno.


Mas com tanta massificação dos serviços do turismo em toda parte, não é sempre tarefa fácil encontrar as verdadeiras experiências autênticas no destino que visitamos – por isso que sempre defendo aqui que a curadoria (seja através de agentes de viagem, revistas, jornais, sites etc) e a pesquisa dedicada são ferramentas importantíssimas nesta tarefa. Ouvir/ler de alguém que foi/viu/fez antes da gente é fundamental para definirmos o que nos interessa ou não nos sonhados dias de uma viagem.

Pois foi sem grandes expectativas gastronômicas que voltei a Ushuaia agora nesta última semana. Estive já várias vezes por lá e, apesar de ser apaixonada pelo destino (e cada vez mais!), até então nunca tinha tido uma refeição realmente memorável. Até que o pessoal da Tierra Turismo, agência local com a qual já tinha feito alguns passeios na última visita e com a qual fiz todos os passeios desta vez (recomendo muito, e vou falar mais sobre ela em outro texto), me sugeriu dois lugares especialíssimos para comer nesta viagem.

O doce chef Ariel em ação preparando a entrada do nosso jantar. Crédito: Mari Campos

Primeiro, fui parar no escondido Rincón Gourmet. Este “restaurante” minúsculo fica literalmente dentro da casa do chef Ariel Ruiz Diaz, no bairro de Andorra, um pouquinho afastado do centro. Ele cozinha somente sob demanda, para grupos de 2 a 12 pessoas, que são servidas no piso inferior da sua própria (e adorável) casa. No dia que fui, Ariel me recebeu com um sorriso enorme – é uma doçura de pessoa! – , a casa quentinha (lareira acesa, por que fazia frio) e uma trilha sonora deliciosa. Primeiro, serve petiscos (blinis de berinjela, jamón de cordeiro patagônico e outras delícias) acompanhados de um belo vinho na saleta de estar. Tanto a saleta de estar quanto a sala de jantar, de mesa grande, são integradas à cozinha aberta, para que a gente não perca mesmo nenhum detalhe da ação.  Tudo acontece no tempo perfeito: o bate-papo com os petiscos e vinho enquanto Ariel coloca a entrada no forno, o prato principal que vai para o forno quando passamos à mesa de jantar para comer a entrada e o papo tão gostoso quantos os pratos, que dura até depois da sobremesa. Uma delícia, amei cada passo – e o jantar completíssimo vale 700 pesos argentinos por pessoa (um pouco mais de US$40). Único senão é que ele não tem site e só reserva por sua página no facebook ou pelo instagram @rincon_gourmet_andorra.

O outro jantar foi igualmente delicioso: fui ao Kalma Restó, do super talentoso chef Jorge Monopoli.  O restaurante é pequeno e aconchegante, ótima trilha sonora também – e no centro de Ushuaia – mas só abre para o jantar e reservas são altamente recomendáveis. Há opções à la carte, mas o melhor negócio é pegar o menu degustación completo, que vale 1100 pesos argentinos com seis passos. – e é possível acompanha-lo com harmonização dos excelentes vinhos da (imensa) carta do Kalma.  Jorge só trabalha com ingredientes 100% “fueguinos” (locais), das carnes e peixes às verduras, temperos, ervas e frutas que acompanham os pratos – mas os sabores de seus pratos passeiam também pelas cozinhas mediterrânea e peruana. O menu muda constantemente, mas no dia que fui incluía desde um espetacular (e curiosíssimo!) gazpacho  da flor dente-de-leão (!!!) até centolla e centollón, super típicos da região. Realmente notável.

Entre diferentes viagens para lá em diferentes anos e estações, estes dois restaurantes foram, sem dúvidas, as melhores refeições que já fiz em Ushuaia. Para anotar e repetir.