A esquerda incendiou o país com “conversa fiada”

Margarida Vaqueiro Lopes

20 Abril 2016 | 12h04

A mais recente polêmica que estalou por terras lusas tem a ver com as declarações da líder do partido português mais à esquerda, Catarina Martins. Num discurso, no passado final de semana, a representante do Bloco de Esquerda disse a certa altura que “o trabalho voluntário é uma treta”. Traduzindo para português do Brasil, “o trabalho voluntário é conversa fiada”.

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Passada a reação inicial, que seria de desprezo máximo por uma afirmação deste tipo num país onde o voluntariado é, ainda, a salvação de muitos serviços e famílias que atravessam necessidades, somo obrigados a refletir e a tentar encontrar uma justificação lógica para as palavras de Catarina. Num segundo momento, a gente até entende o que ela quer dizer: nenhum trabalho voluntário deve substituir um trabalho remunerado; ou seja, as empresas não podem, não devem pedir que alguém trabalhe para elas sem que esse trabalho, essa prestação de serviços seja paga. Até aí estamos totalmente de acordo embora, se eu fosse Catarina Martins, tivesse escolhido outra forma de o dizer. Algo como: “trabalho não remunerado é uma treta”. Porque voluntariado implica, como a palavra indica, uma vontade de o praticar por parte de quem o pratica. Certo?

Mas aí vem um terceiro momento, que coincide com o resto das palavras da dirigente bloquista: “até haver pleno emprego não deveria haver trabalho voluntário”. Uopa!, como assim? Vamos por partes, sim?


É que ponto 1) o pleno emprego é algo que está muito longe da nossa realidade, e a verdade é que duvido de que Portugal possa sonhar com ele até daqui a uns 100 anos, pela forma como a taxa de desemprego continua a subir; ponto 2) uma coisa NUNCA poderá ter a ver com a outra.

Aliás, o próprio Bloco de Esquerda conta com muuuuito trabalho voluntário para conseguir ser aquilo que é. Tal como centenas de instituições, organizações não governamentais, clubes esportivos, associações de apoio comunitário, grupos de apoio em hospitais…enfim. Afirmar que o trabalho voluntário “é uma treta” é desrespeitar centenas, milhares de pessoas que todos os dias dão do seu tempo para causas que consideram relevantes.

Novamente, se ela está somente defendendo que uma prestação de serviços deve ser paga, então sim, não poderia estar mais de acordo. Sempre me bati por isso e continuo afirmando que não poderá haver bons profissionais sem que haja bons salários, e que só isso poderá fazer a sociedade evoluir. Mas isso não tem a ver com voluntariado. E não pode ser confundido, porque o voluntariado não só é uma coisa muito séria como é algo extremamente necessário em qualquer sociedade civilizada e que procura o bem comum.

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