A triste necessidade de celebrar a mulher

Margarida Vaqueiro Lopes

09 Março 2016 | 10h05

Ontem, dia 8 de Março, foi dia internacional da Mulher. Confesso que é dia que não celebro – embora me entristeça com a necessidade de ele ainda existir – mas que respeito. Não celebro porque me irrita o fato de ele ainda ter que existir. Não quero que me dêem flores um dia por ano. Quero que me dêem flores quando fizer sentido. Não quero que lembrem minhas diferenças um dia por ano. Quero que elas sejam ignoradas todos os dias, porque essas diferenças são apenas parte da nossa individualidade enquanto homens e mulheres – somos diferentes. Mas respeito imensamente esse dia. E me entristeço todos os dias 8 de Março pela sua necessidade.

O Estadão fez uma cobertura incrível desse dia lembrando que o Brasil tem uma denúncia de violência contra mulher a cada 7 minutos, e fazendo um tweet com uma denúncia a cada sete minutos. Pelo mundo inteiro, lembrámos as mulheres que fizeram História – não por serem mulheres, mas por serem profissionais incríveis, como o caso de Marie Curie, ou por terem sofrido coisas inimagináveis, como as quatro freiras Missionárias da Caridade que foram assassinadas na semana passada semana no Iémen por membros do auto-proclamado Estado Islâmico.

A necessidade de um dia que celebre a mulher é terrível. Significa que o mundo ainda não está preparado para entender a igualdade de direitos entre gêneros – ninguém quer a igualdade de gêneros! Mulher é mulher e homem é homem. Significa que, quando morrem mulheres – como foi o caso das duas turistas assassinadas no Equador no final de Fevereiro – elas ainda são apontadas como culpadas (vale a pena ler a crônica de Paula Cosme Pinto, aqui). Significa que quando mulheres são estupradas, as autoridades ainda acreditam que “a culpa foi da menina e da roupa que estava usando”. Significa que quando uma mulher tem um filho, alegadamente ela perde a sua identidade enquanto profissional “porque escolheu ser mãe” – como se os homens pudessem engravidar, não é?

Significa que o mundo olha para as mulheres como seres menores, menos dignos de direitos. Significa que o mundo continua sem lutar o suficiente contra causas como a mutilação genital feminina (alguém consegue explicar?), contra a falta de educação por questões tão simples como o difícil acesso a produtos de higiene íntima em altura de menstruação (vale a pena ler essa entrevista de Catarina de Albuquerque), contra a violência doméstica, contra a desigualdade de oportunidades.


Ontem eu recebi uma mensagem que resumia tudo, de um amigo que realmente entende o que está em causa, e que o descreveu em apenas três frases (querido, desculpa utilizar sua mensagem aqui, mas é por uma boa causa ;):

“Feliz dia Internacional da Mulher. Mas além de uma simples felicitação, eu realmente torço para que em 2017 diminua a desigualdade entre homens e mulheres, que não haja tantos casos de assédio sexual e violência contra a mulher. Ou seja, que as minhas duas sobrinhas tenham as mesmas chances que os meus irmãos tiveram, e sejam respeitadas. É isso”.

É isso.

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