Amamos turistas e odiamos turistas

Amamos turistas e odiamos turistas

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Agosto 2017 | 08h24

Sé de Coimbra. © 2017 Sambando em Lisboa. All Rights Reserved

Outro dia, uma amiga brasileira que vive na Austrália chegou em Lisboa e a gente tinha marcado de jantar. O avião dela pousava às 19h, marcámos o jantar para as 21h, e isso daria tempo para ela deixar a bagagem no hotel, sem drama, e chegar no restaurante.

Já passava das 20h quando ela me enviou uma mensagem dizendo que ainda nem tinha saído do aeroporto. Só conseguiu chegar no lugar marcado por volta das 22h, me pedindo desculpas pelo atraso, e contando a cena bizarra que tinha presenciado no metrô a caminho do hotel: uma senhora que, gritando, mandava os turistas de regresso às suas casas, porque estava farta deles. Ela me perguntou o que se passava e eu tentei explicar em linhas simples – isso não justifica faltas de educação nem gritos, naturalmente. Mas é importante saberem por que, eventualmente, vão encontrar tanto português irritado com estrangeiros passeando por aqui:

  1. Os transportes públicos já não funcionam bem há largos meses. A presença de turistas em Lisboa, ao invés de ter feito a prefeitura melhorar a rede, só piorou a situação: não há mais ônibus ou carruagens de metrô, mas há mais pessoas. Quem tenta ir trabalhar, todos os dias, viu a vida transformada num inferno;
  2. O arrendamento de curta duração acabou com os apartamentos disponíveis no centro da cidade. Ou melhor, eles existem, mas a preços que ninguém pode pagar. A título de exemplo: um salário médio em Portugal, hoje em dia, é de cerca de 900 euros. O aluguel de um apartamento com um quarto no centro de Lisboa varia entre os 750 euros e os 1 750 euros – valores vistos na manhã do dia de hoje, 8 de Agosto. Ou seja, poucas pessoas têm sequer um salário que chegue para pagar o aluguel… Isso significa que os lisboetas estão sendo obrigados a sair da cidade, ficando mais longe do trabalho e…de tudo, na verdade.
  3. Alguns restaurantes estão aproveitando para subir os preços, também, naquele esquema legal de conseguirem que os turistas gastem em uma hora os euros que tinham previstos gastar para esse dia.
  4. Os ônibus turísticos entopem as ruas mais apertadinhas dos bairros históricos, o que dificulta a vida a quem mora lá.

Agora vem a parte legal: Portugal precisa de turistas. É disso que vive grande parte da nossa economia. Sem os turistas – e a gente tem beneficiado da ausência de paz em alguns destinos de eleição de franceses e alemães, por exemplo – as contas do Estado estariam bem mais complexas. Então, na verdade, eu não me queixo por haver menos espaço para a minha toalha na praia. Porque, na verdade, são os turistas que estão fazendo com que Portugal ainda não esteja novamente olhando para o fundo do poço. É claro que é preciso haver legislação que modere esse impacto que a vaga está provocando na vida das pessoas; é claro que eu adoraria ver casas que não custam mais que os nossos salários; é claro que gostaria que não cobrassem por uma refeição o mesmo que me cobram em Paris. Mas cada coisa a seu tempo.


E por favor, desculpem o nosso mau jeito com os turistas. Não prometo que vá melhorar, mas garanto que muita gente gosta de vos receber por aqui.

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