Angola e Portugal: é ódio ou amor?

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Abril 2016 | 14h40

Angola voltou a atacar Portugal num editorial do Jornal de Angola, dizendo que a imprensa nacional está desejando “a desgraça alheia” e acusando os media portugueses de mentirem, ao afirmarem que o país pediu um resgate ao Fundo Monetário Internacional.
Vamos aos fatos: na quarta-feira, 6 de Abril, Angola pediu oficialmente a ajuda do Fundo Monetário Internacional para enfrentar a grave crise económica que atravessa devido à forte quebra do preço do petróleo. Falta de divisas estrangeiras fazem com que muitos trabalhadores [estrangeiros] não estejam a receber seus salários, as importações de produtos básicos são uma miragem e o país vai ficando cada vez mais isolado com o kwanza, a moeda nacional que não vale coisa alguma fora de Angola.

O título do comunicado oficial do ministério da Fazanda angolano anunciando o recurso ao FMI foi, no mínimo, curioso. Segundo o governo, Angola está, desta forma, reforçando “a estratégia de diversificação com apoio do FMI” – recorde-se que há vários anos que o executivo liderado por José Eduardo dos Santos inscreve no Orçamento Geral do Estado a necessidade de diversificar a economia para ficar menos dependente do preço do petróleo.Assim, e segundo o ministério, o país quer que o Fundo ajude a diversificar essa entrada de dinheiro na economia, através de uma ajuda financeira que será avaliada entretanto numa reunião em Washington.

Seja qual for o título do documento, o que Angola pediu ao FMI foi um resgate financeiro a três anos. Precisamente cinco anos antes, a 6 de Abril de 2011, Portugal fez um pedido semelhante – pela voz de José Sócrates -, a que o Fundo dirigido por Christine Lagarde respondeu utilizando exatamente o mesmo mecanismo que vai utilizar para Angola.

Ou seja, por um lado o governo angolano afirma que só está pedindo ajuda técnica para relançar a economia – mas claro que isso vem acompanhado de ‘investimento’ por parte do FMI. Por outro, o FMI confirma que Angola pediu a utilização do Extended Fund Facility, um mecanismo que efetivamente é negociado caso a caso, mas que implica reformas econômicas e aplicação de medidas a serem avaliadas regularmente em troca de empréstimos de dinheiro.


Poderia ser apenas uma questão de semântica ou de tradução mal feita por um dos países, não é mesmo? Mas tudo se torna mais esdrúxulo quando estamos falando – literalmente – a mesma língua.

Resta agora saber se Angola também vai escrever algo sobre a CNN – para dar apenas um exemplo estrangeiro – sobre o título usado na peça ‘Angola pede resgate ao FMI’…

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