Deixar a casa dos pais é para trintões?

Margarida Vaqueiro Lopes

10 Dezembro 2015 | 14h43

A discussão voltou essa semana a Portugal, e eu fui dar uma olha nos números europeus: os jovens estão saindo de casa dos pais cada vez mais tarde, e as desculpas vão se sucedendo sem que nenhuma me convença absolutamente.

A primeira justificativa para que atualmente os jovens esperem quase até aos 30 anos para sair de casa dos pais é o desemprego. No entanto, em vários outros países europeus onde o desemprego também aumentou, os filhotes abandonaram o ninho por volta dos 19 ou 20 anos.

A outra justificativa é que os salários são muito baixos. Mas vamos ser sinceros: quando é que os salários de um recém-licenciados foram altos, mesmo? Tem ainda a questão de que “há cada vez mais instabilidade no emprego, então essa incerteza sobre se o trabalho se vai manter ou não” convida a que os pequenotes não queiram arriscar.

Eu confesso que tenho uma visão um pouco menos dramática da realidade. Me parece bastante claro que as novas gerações arranjam todo o tipo de desculpa para não sair de casa dos pais cedo. Afinal, é muito mais legal ter toda ‘a papinha feita’ sem que isso custe um real (ou um euro), né?


Se não, vejamos: aluguel ou prestação da casa + conta da luz + conta da água + alimentação + tv e internet + condomínio + transportes…bom, a soma é avultada e se eu for um recém-licenciado não morando em casa dos meus pais, precisarei reduzir um monte de coisas na minha vida. Os jantares fora, os chopes, as festas, as viagens. Porém, se com o meu salário de 500 euros (ou 1.500 ou 2.000 reais) eu não precisar pagar contas, de repente o dinheiro que me sobra é incrivelmente mais. E minha vida melhora consideravelmente ao invés de piorar. Certo?

Então continuemos o raciocínio: imagine que numa empresa eu tenho um jovem recebendo 600 euros e vivendo sozinho (encarando um aluguel de pelo menos uns 300 euros + despesas) e um outro recebendo o mesmo e vivendo com os pais. Qual deles se vai bater mais rapidamente por um aumento salarial? O que tem uma vida boa porque 600 euros é lucro visto que não tem despesas ou o cara a quem 100 euros o fará dormir melhor?

Pois é: para as empresas é ótimo que os pequenotes continuem vivendo em casa dos pais, que eles não tenham muita despesa e sejam felizes. Serão sempre profissionais que exigirão menos.

E para os pais que adoram ter os filhos debaixo das asas, é ótimo que eles tenham salários baixos que os deixem dependentes. O problema é que serão também pessoas mais acomodadas, achando que do céu tudo lhes cairá e que nunca precisarão se bater para ter uma vida melhor.
Lamento, mas eu acredito que quem nunca passou pela aflição de não saber como vai pagar uma conta nunca poderá exigir realmente um salário justo; nunca se esforçará tanto quanto… E sou absolutamente contra essa cultura de deixar os meninos em casa dos paizinhos até terem 30 anos. Acho contra-producente, ridículo e que promove a despreparação de um adulto saudável…

Mas quem sou eu, né?

Dados do Eurofund, do ano passado, mostrava que Portugal estava em 10.º lugar entre os países onde mais jovens saem mais tarde de casa. Me chamem quando esse país for mais parecido com a Finlândia, por favor.

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