Diário Económico: se fechar, a culpa [também] é nossa

Margarida Vaqueiro Lopes

24 Fevereiro 2016 | 09h22

Gostaria muito muito que o título acima não se confirmasse. Mas a verdade é que Portugal está olhando novamente para o iminente fecho de um dos mais importantes jornais de economia do país, líder de mercado em online e papel, sem que continuemos a mudar coisa alguma no pensamento sobre o assunto (lembram que recentemente aconteceu o mesmo com o i?)

O Diário Económico – que me é bastante caro pelos anos que lá passei, devo fazer já essa declaração de interesses – tem quase trinta anos, tendo nascido no último ano da década de 1980. Em 2010 a empresa lançou um canal de televisão totalmente dedicado à economia e negócios – tudo bem, talvez não tenha sido a melhor estratégia de investimento – e nessa altura trabalhavam naquelas duas redações quase uma centena de jornalistas. O Económico sempre teve um monte de suplementos, edições especiais dedicadas a setores específicos, uma revista de LifeStyle de referência (A Fora de Série) para além do jornal diário (que até 2010 saía 6 vezes por semana. Em Dezembro desse ano passou a ter somente 5 edições por semana).

Os jornalistas do Económico são dos mais bem formados da área. Uns são jornalistas de profissão, outros economistas mesmo. São curiosos, são trabalhadores, sabem farejar uma notícia, são leais, são jornalistas de alma e coração que estão há três meses sem salário porque a administração, que já teve propostas em cima da mesa para a compra do título, não efetivou nunca a venda.

Esses mesmos jornalistas foram confrontados essa terça-feira, 23 de Fevereiro, com a possibilidade de a empresa ser considerada inadimplente. Ao final da tarde, fechando a edição dessa quarta-feira, 24 de Fevereiro, os trabalhadores reuniram para conversar. Pediram à administração que lhes fossem apresentadas todas as hipóteses existentes e as condições de cada uma delas. E fizeram um apelo público ao país, para que consumisse informação produzida por eles. Esses jornalistas, alguns amigos queridos, vão lutar até ao fim, esperando que o fim não chegue e que alguém entenda o valor dessa marca e possa ajudá-los a não cair. Se morrerem, morrerão de pé, fazendo um trabalho incrível: nos últimos meses, com salários em atraso e um mercado fechado e sem muitas alternativas, eles se mantiveram na liderança informativa de economia.


Repetindo algo que já escrevi aqui, quando um jornal, sobretudo um com a qualidade desse, fecha, nós perdemos mais que eles. A democracia perde. A informação perde. O leitor perde. A sociedade perde. E ganha a opacidade, a corrupção, o poder, a desinformação. Quando um jornal fecha, o mal vence, porque os interesses foram mais importantes que a verdade; que a boa gestão; que o compromisso.

Isso é sinal, também, de uma democracia podre e de uma sociedade pobre. E nós, leitores que não gostamos de pagar por informação, que achamos que jornalista é metido a besta, que não entendemos a mais-valia de um profissional da informação que sabe apurar fatos, destrinça-los, descobrir histórias e expor verdades, que queremos é informação rápida em vez de informação verdadeira, estamos contribuindo para tudo isso. Para pior democracia. Para uma mais pobre sociedade.

Se já viram o filme ‘Spotlight – Segredos Revelados’ e se acham que não se faz jornalismo assim, pensem que todos nós temos a nossa quota-parte de culpa nisso: é que bom jornalismo não se faz sem leitores que o considerem relevante. Se preferimos ver bloggers falando de vestidos ao invés de considerarmos boas matérias de investigação, não nos admiremos depois com o estado das políticas, da economia e das empresas. Somos nós, também, quem não contribuiu para a melhorar.

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