É abuso sexual, sim!

Margarida Vaqueiro Lopes

05 Dezembro 2016 | 20h02

Caso 1.

Esse final de semana, a notícia de que a cena de sexo do famoso filme ‘Último Tango em Paris’ foi estupro correu o mundo. Durante vários anos, com entrevistas públicas incluídas, a atriz Maria Schneider contou que tinha sido estuprada. Curiosamente – ou não – nunca foi ouvida. Todo o mundo olhou para o lado e a vida seguiu.

Schneider morreu em 2011, vítima de cancer, depois de uma vida recheada de depressões, abuso de droga e tentativas de suicídio. Provavelmente Bertolucci destruiu, naquela cena, a vida de uma menina de 19 anos. Não está arrependido, embora diga que se sente culpado… Ninguém está fazendo nada sobre o assunto.

Caso 2.


A apresentadora portuguesa Cristina Ferreira escreveu recentemente um livro para contar a sua vida. Ela nasceu numa cidadezinha perto de Lisboa, filha de uma família de baixa renda, e em alguns anos construiu um verdadeiro império, com negócios diversificados que vão desde a perfumaria a revistas onde ela própria estrela muitas capas. Numa das passagens do livro, Cristina Ferreira diz que, na TVI, – estação televisiva onde ainda hoje é estrela dos programas da manhã – um cara vivia dando em cima dela. É uma denúncia clara de assédio sexual. Nada aconteceu.

Caso 3.

Como já falei aqui, na semana passada, quase um terço dos portugueses acredita que  é possível encontrar uma justificativa para um ato sexual não consentido. O estudo foi publicado há uns dias, pensou-se sobre ele nas 48 horas seguintes e tudo segue igual por aqui.

Caso 4.

Há uns meses, numa greve épica que os taxistas portugueses decidiram fazer contra a Uber, um deles disse essa frase incrível em direto na televisão: as leis são como as meninas virgens, são para ser violadas” (ou estupradas, em português do Brasil). No dia seguinte veio dizer que afinal o que ele queria realmente falar era que as leis NÃO são para ser estupradas, bla bla bla. Não aconteceu coisa alguma.

Eu sei que os homens acham que nós, mulheres, estamos sempre falando dessas coisas. Que exageramos no drama de falar de feminismo. Que já estamos super em pé de igualdade com eles no mundo e que essas situações que descrevo aqui não são o que acontece todo o dia, a toda a hora.  Só que acontece. E é grave.

Mas mais grave ainda é a impunidade com que esses caras fazem esse tipo de coisa. Grave é a sociedade ainda achar que a mulher nunca está dizendo a verdade quando diz que se sentiu assediada. Grave é a gente continuar achando que mulher é menos que homem, e fingir que já não acreditamos nisso. Grave é não acontecer coisa alguma aos criminosos, porque quando alguma coisa acontece “a culpa foi da mulher que estava pedindo”. Porque usou uma saia (mais) curta, porque andou sozinha na rua de noite, porque pintou os lábios, porque é mulher, basicamente.

E depois a gente ainda se espanta quando personagens como Donald Trump ganham as eleições?…