Em nome da qualidade

Em nome da qualidade

Margarida Vaqueiro Lopes

17 Janeiro 2018 | 14h20

Apesar de já viver em Lisboa há praticamente metade da minha vida, a verdade é que eu não sou uma moça da cidade. Adoro viver aqui, adoro o ritmo frenético de uma cidade – aliás, continuo sendo uma apaixonada pela loucura paulistana e lembro regularmente o período em que morei aí – mas há coisas que o campo tem que nenhuma cidade do mundo nos consegue dar.

Podia falar de várias, mas hoje escolhi falar de alimentos, porque é uma preocupação cada vez maior que todo o mundo vai tendo aqui em Portugal – de onde vêm os ingredientes que usamos, como são produzidos, em que quantidades, de que forma estamos contribuindo para a manutenção do planeta em função do que consumimos.

Em Lisboa abriram, nos últimos anos, várias quitandas que procuram produtores locais dos arredores da cidade, e que trazem seus produtos até aos moradores. Outra coisa que está sendo mais comum, também, é a venda de produtos a granel, de forma a fomentar o consumo mais responsável e a diminuir consideravelmente a utilização de embalagens plásticas.

Morando em Lisboa, compro inevitavelmente muitas coisas aqui: essas lojas a granel são uma ótima opção, que tento usar cada vez mais – levando embalagens de casa ou substituindo o plástico por embalagens de papel – tal como as quitandas ou mercados municipais, uma vez que também deixei de comprar alimentos frescos nos grandes supermercados, onde geralmente fazem compras a fornecedores que produzem grande quantidade e portanto com menos responsabilidade e qualidade. O problema é que, como em qualquer grande cidade, optar por comer melhor ou mais saudável tem também um grande incremento nas despesas, no final das contas.


Então que conversa é essa, Margarida? Bom, na verdade achei que era hora de fazer um convite para quem está viajando para Portugal, seja para morar ou somente para visitar: vamos ver lugares onde você pode conhecer produtos da região e comprar alguns deles a preços muuuito mais legais do que nas cidades?

As casas!

Se acompanha o Instagram do blogue, já viu uma ou outra foto de um mercado que eu adoro frequentar: nas Caldas da Rainha, uma cidade a 100km de Lisboa, onde várias bancas têm em exposição maças de Alcobaça, pêra rocha do Oeste e toda uma quantidade imensa de vegetais que vêm diretamente das hortas dos produtores que são, muitas vezes, os próprios vendedores. É possível comprar saquinhos com preparados para sopa – aqui em Portugal a gente tem muito o hábito de comer sopa de legumes para iniciar a refeição –, cogumelos frescos, alface ainda com terra agarrada, compota caseira com fruta do jardim da vendedora…sei lá. A vantagem? Como a venda é feita diretamente com quem produz, sai bastante mais em conta – e sabemos que o dinheiro vai direto para essas pessoas que tentam sobreviver da terra, apesar da feroz concorrência dos grandes supermercados. Além disso, os produtos têm imensa qualidade e é legal ajudar a economia regional.

Eu não sou fundamentalista da produção biológica – acho que, com bom senso, alguns produtos ajudam, sim – e portanto não tenho problemas em comprar junto dessas pessoas, que sei que usam alguns químicos. Para quem é, fica mais difícil não comprar em lojas que garantam que a produção é totalmente sem recurso a químicos.

Couve-flor espreitando no mercado das Caldas da Rainha

O mesmo acontece, por exemplo, com a carne que consumo: tento comprar mais de 90% das vezes num talho, e preferencialmente fora de Lisboa. Porque isso faz com que eu mais facilmente saiba a origem dela, e porque geralmente vem de animais que crescem ao ar livre, sem ser de produção intensiva.

Esses cuidados têm acabado por me levar muito mais vezes para a minha vila de origem, um lugarzinho 80km a norte de Lisboa, bem do lado da vila medieval de Óbidos, que todo o mundo conhece. Acontece por isso que nos últimos meses tenho me abastecido sempre no mercado municipal, junto da D. Lurdes, que conheço desde criança e que ainda produz um monte de coisas na sua chácara. Aproveito e passo na D. Rosa, que continua fazendo o melhor frango do churrasco de que me lembro, e depois disso ainda é possível comer um daqueles pães – estilo francês – que a gente só encontra em padarias pequenas, mesmo, e de qualidade.

As compras dessa semana, diretamente da horta da D. Lurdes

Estou falando dessas duas porque são as que conheço melhor. Mas no fundo, o que estou fazendo é um convite a que vocês conheçam esse pedacinho de Portugal: lugares onde ainda todo o mundo se conhece pelo nome, onde vendem as coisas que fazem ou colhem com suas próprias mãos, lugares onde a qualidade ainda vem antes da quantidade, onde os alimentos têm sabor e as experiências sorrisos de quem fica realmente agradado se você gostar do que está comprando. Procure vilas ou pequenas cidades como Bombarral, Caldas da Rainha, Peniche (onde comprará o melhor peixe fresco), São Martinho do Porto), Aveiro, Espinho, Reguengos de Monsaraz, Silves, Santiago do Cacém, Cuba, Serpins, Anadia, Fornos de Algodres, Cinfães, Coja…

Conheça o Portugal menos urbano mas com tanta coisa boa para lhe oferecer. Se encante com as paisagens e as gentes. Delicie-se com a comida, inspire o ar puro e se lembre que Portugal é isso também. É bastante isso!

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