Em Portugal, negócio se faz à refeição. E tudo o resto também

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Outubro 2015 | 04h09

Quando vivi em São Paulo, uma das coisas mais estranhas para mim foi essa coisa de a galera não marcar de almoçar ou de jantar junta todo o dia. Em Portugal, tudo o que é mais importante a gente faz almoçando. Ou jantando. Negócios, encontros amorosos, reencontros de amigos, o que você quiser.

Aliás, é muito normal aqui a gente marcar um jantar no primeiro encontro amoroso – almoço não conta, sabe como é. Os negócios, as propostas de trabalho, as ideias para um projeto, essas por norma acontecem na hora do almoço. Como matar saudades dos amigos ou querer ter uma conversa importante com alguém. Ah, e claro, a gente sempre está convidando alguém para ir jantar em casa. Não tem essa de vir só tomar uma cerveja. Tem que fazer a refeição completa, mesmo.

Essa relação que a gente estabelece com a comida não tem uma explicação muito lógica. Bom, a gente gosta de comer, é certo. E a nossa comida é maravilhosa – imagine comida mineira todo o dia, mas ainda melhor porque inclui peixe e legumes o que dá aquele ar mais saudável! Então é como que se fosse uma espécie de tradição.

No almoço, a gente difere dos povos do centro e norte da Europa que comem um sanduiche em frente do computador. Não tem isso não: você para mesmo, vai comer uma refeição completa (sopa – essa é facultativa –, prato principal, sobremesa e café expresso) e volta para trabalhar. Uma hora depois. Ou mais. Também é super habitual você não almoçar com os colegas de trabalho e marcar almoços com amigos ou com contatos profissionais.


Nos últimos anos, a crise trouxe o hábito de levar marmita para o trabalho – fica bem mais barato e também mais saudável. No entanto, se o almoço não for fora da empresa, então o café expresso é. A gente dá uma caminhada, toma um café, descontrai e só depois a gente regressa. Não tem essa de apressar o descanso do meio do dia.

No jantar, o esquema é o mesmo: pode ter jantar tooodo o dia da semana. Em vez de tomar um chope e pedir umas porções, aqui em Portugal o jantar é levado bem a sério. A gente escolhe um lugar, de preferência marca mesa, senta para jantar e tomamos nova refeição completa. Se não der para jantar fora – crise, lembra? – a gente faz isso em casa. Por volta das 20h30 as pessoas vão chegando e a gente tem a mesa bem posta, uma boa garrafa de vinho (sim, é mesmo verdade, a gente aqui sempre toma vinho, sobretudo se temos visitas) e a refeição pode durar umas três ou quatro horas, tranquilamente.

Por isso, se por acaso vier aqui de visita – ou passar uma temporada – não estranhe que alguém te convide, de caras, para ir jantar lá em casa: é possível que o convite se concretize realmente, em cerca de 48 horas! Mais fácil que marcar hora para tomar um chope. Vai uma aposta?

PS. E claro, qualquer negócio fica bem mais fácil de fechar se for acompanhado com um ótimo vinho português, não é? Agora imagine isso, e com vista para o rio Tejo…