Eurocopa e a hipocrisia nacional

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Julho 2016 | 13h27

Como já devem saber, Portugal está na final da Eurocopa, e vai defrontar a França esse domingo. Praticamente nenhum português – tirando os jogadores e o selecionador nacional – acreditava que isso fosse possível. Durante os meses de preparação para o torneio as críticas foram imensas: que os jogadores convocados não eram os que deveriam ser, que o selecionador nacional não estava fazendo direito, que íamos ser uma vergonha durante a competição, que Cristiano Ronaldo nunca joga tão bem quanto deve quando veste a camiseta da seleção.

Durante a fase de grupos, o coro de críticas foi aumentando: Portugal só conseguiu empatar, praticamente não fez gols e a maldição se prolongou até às meias finais, sem haver vitórias no final do tempo – em ambos os jogos foi preciso ir a prolongamento e até a penaltis, frente à seleção polonesa.

Mas aí parece que o enguiço quebrou quando Portugal defrontou a seleção do País de Gales, com todo o país novamente pensando que não seria possível. Cristiano Ronaldo fez o primeiro gol – um incrível gol de cabeça, na verdade – e Nani o segundo. De repente, a seleção nacional era a melhor seleção do mundo. Todos os jornais, todos os blogues, todas as páginas de redes sociais estavam aplaudindo e dizendo que sempre acreditaram. Se sucederam os elogios públicos, o “eu sempre acreditei”, as cartas abertas aos jogadores, de repente os melhores do mundo.

E isso não tem problema nenhum. Aliás, eu até acho que é bastante saudável haver algo que nos anime enquanto o estado da economia e da política nacionais não dá qualquer razão para otimismos. Agora, o que me incomoda, sinceramente, é a hipocrisia: é ver um país inteiro que durante meses xingou um time, de repente apregoar que sempre disse que era o melhor do mundo. É ver um país inteiro que não gosta do selecionador agora apregoar que afinal ele é o melhor.


No fundo, a gente é tão hipócrita na Eurocopa quanto no resto dos assuntos: quando vem um governo novo, a gente odeia. Se devolve impostos, a gente adora. Quando vem um presidente novo, a gente odeia. Se a imagem do país melhorar no estrangeiro, a gente adora. Quando a União Europeia diz que o nosso défice é excessivo, a gente os chama de mentirosos. Quando vêm dizer que o défice diminuiu, a gente acha que eles são ótimos. Quando as empresas portuguesas são elogiadas por um meio de comunicação nacional, a gente diz que foi uma matéria comprada.  Se a matéria sair numa publicação estrangeira, a gente diz que afinal aquela empresa é incrível e que ninguém dá créditos, aqui.

E assim vamos vivendo, sempre oscilando entre o ódio e o amor, sem sabermos exatamente que caminho queremos seguir e, consequentemente, sem sermos exigentes com os nossos líderes porque, lá está, a gente nem sabe bem quem ama ou odeia. Mas o que realmente importa é que a gente ganhe a final da Eurocopa nesse Domingo.

Afinal, sempre acreditámos que seria possível…

Acompanhe o blogue no Facebook e no Instagram

Mais conteúdo sobre:

eurocopafutebolPortugal