Feriram o coração da Europa. Mas não o mataram!

Margarida Vaqueiro Lopes

16 Novembro 2015 | 08h53

Eu não sou supersticiosa, mas a última sexta-feira 13 me fará odiar as sextas-feiras 13 todas a partir de agora. Tal como o 11 de Setembro me ficou gravado na memória, também o ataque bem no coração da Europa, ali na Praça da República em Paris, ficará para sempre marcado nas minhas lembranças. Nas de todos os europeus.

Feriram o coração do ‘Velho Continente’. Badly. Feriram como quem fere para matar, para nos fazer sucumbir, para nos aterrorizar. Podiam ter sido amigos meus, ali naquela sala de concertos, naquele restaurante, no estádio de França. Podia ser eu, que das últimas vezes que estive em Paris fiquei sempre naquele bairro: usava as lojas, tomava o café-da-manhã, jantava, dormia a escassos blocos de onde houve uma chacina de uma centena de pessoas que estavam fazendo aquilo que todos fazemos a uma sexta-feira à noite. Escutar música. Jantar. Beber um copo com os amigos. Viver. Viver.

O auto-denominado Estado Islâmico e seus radicais querem fazer-nos ter medo. Querem paralisar-nos com o receio de sair de casa, de ir a museus, de ir jantar fora, de ir a concertos, de ir ao cinema. Querem que a Europa, o mundo sucumba com medo de pegar uma bala, uma bomba. Querem fazer-nos ficar quietos enquanto eles dominam o mundo.

Estamos reagindo tarde – eu sou, por princípio, conta o princípio de ‘olho por olho, dente por dente’, mas neste caso não pode ser de outra forma – mas vamos reagir. A Europa, dividida, sempre se une quando ferem um dos seus. Temos várias guerras na História, e travaremos mais se a isso formos obrigados. Eu não combato, por isso não posso fazer luta militar. Mas posso não deixar que o medo me consuma. Posso marcar viagens para Paris – como vamos fazer –, posso continuar a viver de sorriso nos lábios, posso pregar o amor todos os dias, posso combater o mal com o bem. “Para que o mal vença, basta que os homens de bem nada façam”. Nós vamos fazer a nossa parte. Daremos o corpo às balas em honra daqueles que morreram às mãos de quem se acha superior. Se assim não for, todos eles terão morrido em vão. E o coração deixará de bater.


Por agora, estamos ligados à máquina, e vamos sobrevier. Todos juntos, faremos o coração da Europa bater de novo, sem ajuda, com o mesmo fulgor. E restauraremos a segurança de que tanto nos orgulhamos. É esse o mundo que quero deixar às próximas gerações: um mundo que não cede, que não teme, e onde o bem vencerá sempre, mesmo que entretanto o mal ganhe algumas batalhas.

 

PS. Deixo-vos, em jeito de exemplo, a capa que o jornal português i colocou nas bancas essa segunda-feira. É uma capa que mostra solidariedade, coragem e a prevalência dos valores da humanidade, patentes na bandeira francesa: igualdade, liberdade, fraternidade.

 

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Capa do jornal generalista português i de dia 16 de Novembro de 2015