Futebol, violência e mídia

Margarida Vaqueiro Lopes

20 Maio 2015 | 13h21

Esse Domingo o Benfica ganhou o campeonato nacional – o equivalente ao Brasileirão. Aí, como em todas as celebrações, os adeptos vieram para a rua celebrar a vitória com as camisetas do clube, muita cerveja e muita alegria. Lisboa se encheu de vermelho ali no Marquês de Pombal, onde sempre acontecem essas celebrações futebolísticas, e o país inteiro estava rejubilando.

Eu, na verdade, estava dentro de um avião, voltando a terras lusas, mas soube que o Benfica tinha vencido essa. Sou uma fã moderada de futebol, e me alegrei com um sorriso, como benfiquista moderada. Mas aí cheguei em Portugal e vi que já havia uma história bem mais grave correndo. No final do jogo, em Guimarães – uma cidade no norte do país – um oficial da Polícia de Segurança Pública (PSP) agrediu violentamente um adepto de 43 anos que tinha levado os filhos a ver o jogo.

Nesse tempo em que a internet não perdoa, o vídeo correu o país em minutos e o mundo em alguns dias. Essa quarta-feira o agredido já estava dando entrevistas para agências internacionais sobre aquilo que está sendo chamado de violência policial. O Ministério Público abriu inquéritos para averiguar os fatos, mas a verdade é que ninguém conseguiu entender o que aconteceu.

Por um lado o policial diz que o cara cuspiu na cara dele e o agrediu verbalmente – não é desculpa, vai! Por outro, o agredido garante que isso nunca aconteceu, e que apenas estava explicando que queria sair do estádio com as crianças. As forças policiais prenderam o adepto bem na cara do filho, criança, dele.


E aí nova imagem correu o país: a de um outro policial abraçando a criança e tentando que ela não visse a detenção e a agressão – restaurada a fé na humanidade!!

Uma onda de indignação está agitando o país: afinal, as forças policiais existem para nos defender. Mesmo que sejam agredidos verbalmente, mesmo que estejam cansados, mesmo que alguém cuspa na cara deles, não há qualquer razão para a força e brutalidade que foi usada contra aquele homem. Aliás, eles são treinados para não reagir.

Por outro lado, um cara não é o espelho de toda uma classe. Deve ser punido pela atitude, mas não tem como passar os dias dizendo que todos os policiais são horríveis. Ou melhor: é preciso fazer uma averiguação clara sobre se esse caso é tão isolado como parece ou se é recorrente. Se for recorrente, temos que tomar uma atitude e evitar que os nossos policiais sejam tão autoritários e sem noção quanto os de um país ditatorial. Se não for, é preciso punir severamente esse cara – que ainda não foi suspenso de funções – e entender o que aconteceu, na realidade. A gente sempre acredita que os policiais nos defenderão até à morte, mas essa imagem está cada vez mais destruída.Talvez porque essas agressões sejam mais recorrentes, ou talvez porque são mais denunciadas – quem tinha smartphone para fotografar e filmar tudo há uns anos?

Seja como for, a alegria do futebol foi suplantada por esse caso, grave, que precisa ser resolvido o quanto antes para que todos voltemos a ir com alguma tranquilidade para eventos esportivos como o desse Domingo.E para que voltemos a confiar em quem tem o dever de nos proteger acima de tudo.