Ganha mil euros por mês? Em Portugal é rico

Margarida Vaqueiro Lopes

20 Setembro 2016 | 08h01

As conclusões são do estudo “Portugal Desigual”, elaborado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) e que foi apresentado essa segunda-feira.

No primeiro retrato dessa dimensão feito sobre a pobreza e desigualdade em Portugal, a gente descobre fatos ligeiramente chocantes: praticamente todo o mundo é rico, em Portugal; quem mais perdeu com a crise financeira dos últimos anos foram as classes mais baixas; Portugal é um dos países com maior nível de desigualdade entre os Estados da Europa e o rendimento médio dos portugueses caiu praticamente 100 euros entre 2006 e 2014.

Nesse site pode encontrar um simulador que explica os efeitos da crise nas famílias portuguesas e pode se surpreender com os resultados. Por exemplo: uma pessoa que ganhe 1000 euros líquidos por mês está na metade mais rica do país, havendo 54,3% de portugueses que ganham menos que isso. Os valores se referem a 2014, quando o salário médio era de 910 euros. No entanto, se estivermos a falar de salários das mulheres, essa média baixa para os 820 euros – a desigualdade salarial entre géneros é superior a 16%, no país.

Mais um exemplo? Um casal, sem filhos, que ganhasse 2.000 euros por mês, está entre os 25% mais ricos do país. Bizarro, não é? Sobretudo se tivermos em conta que o salário mínimo nacional, em 2014, era de 485 euros (no final do ano passou para 505 euros). Ou seja, todos aqueles que acham, em Portugal, que são classe média, na verdade não são. São classe alta. Classe A ou B, nos parâmetros brasileiros. A classe média foi, efetivamente, a que menos perdeu com a crise (entr 10% a 11%). Isso também se prende com o fato de praticamente não haver classe média – afinal, somos todos ricos e temos sido taxados nesse sentido.


Durante a crise, o governo de direita decidiu reduzir de oito para cinco os escalões do imposto de renda. Isto significa que uma pessoa que ganha cerca de 500 euros por mês pague quase o mesmo de imposto que uma que ganha 1400. Legal, não é?

Numa altura em que a questão ricos e pobres voltou à agenda midiática – muito devido às declarações de uma deputada do Bloco de Esquerda, que afirmou que “é preciso perder a vergonha e ir buscar dinheiro a quem o acumula” – vale a pena olhar para esses números e entender que quase tudo o que achávamos sobre os rendimentos das famílias está profundamente errado.  E entender que são muito poucos os que conseguem acumular. Porque afinal os ricos ganham mil euros. E quem ganha mil euros não consegue poupar para ser rico.

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