Infelizmente, não somos melhores que eles

Margarida Vaqueiro Lopes

09 Setembro 2015 | 16h21

(Antes de mais, um pedido de desculpas pela ausência. Foi tempo de ir de férias aqui no pequeno país da Velha Europa, e dessa vez decidi desligar totalmente do mundo para conseguir algum descanso)

Dito isso, vamos ao tema de hoje: a crise de imigrantes da Europa. Sei que desse lado vocês estão acompanhando o drama que estamos vivendo aqui, e por isso mesmo não posso deixar de partilhar a minha vergonha, enquanto cidadã portuguesa, europeia, com o que está acontecendo nesse momento.

Todos nós condenamos a guerra: todo o mundo gritou contra Bush quando ele decidiu iniciar as guerras no Iraque e no Afeganistão; olhamos para a Síria com lágrimas nos olhos, partilhamos, chocados, as fotografias que chegam dos conflitos no mundo árabe, condenamos tiranos como o falecido Kaddafi e nos insurgimos contra as políticas ditatoriais de Ahmadinejad.

Mas aí o problema vem bater na nossa porta. Milhares e milhares de pessoas tentando chegar a esse Velho Continente, pobre, se recuperando de uma das maiores crises financeiras da História, mas que sempre dá uma certeza: a da segurança. Nossas fronteiras abertas, nossa história de braços abertos para o mundo são chamadas a dar uma resposta, e o que agente faz?


Olhamos de lado, erguemos muros, estabelecemos quotas de gente que pode entrar no país para fugir da guerra. Durante dois dias nos chocamos com as imagens do menino que morreu afogado numa praia, tentando chegar na Europa, e dois dias depois afinal, os migrantes são um flagelo e o Estado Islâmico é o que nos passa na cabeça.

Aqui em Portugal o debate está sendo pouco e pouco informado. Gente, a quantidade de comentários xenófobos está me enchendo de vergonha de ser portuguesa. Nós, povo que “deu novos mundos ao mundo”, estamos agora virados totalmente para o nosso umbigo, confundindo tudo, defendendo que essa gente que foge da morte deve ficar no país deles. Temos medo, ao que parece, que o Estado Islâmico entre em barquinhos para atacar a Europa, esquecendo que o EI anda de avião e JÁ está na Europa.

Outro dia ouvi alguém dizendo que “a gente tem sem-abrigo para cuidar aqui. Vamos ajudar eles, e não receber mais gente”. Também já escutei pessoas – ok, foi um dos candidatos a premiê nas eleições do próximo dia 4 de Outubro – defendendo que refugiados podem vir para Portugal “para limpar florestas”. Oi? Há também quem diga que na verdade devemos deixar os caras se virar sozinhos, porque a gente não tem nada com isso.

As mesmas pessoas que se indignaram e que encheram as redes sociais de fotinhas e comentários inflamados contra a morte de Cecil, o leão, são as mesmas que não mostram uma réstia de humanidade para com…humanos! Gente, são pessoas. Seres humanos. REFUGIADOS. Gente que prefere ser sem abrigo na Europa a viver com a morte sobrevoando suas cabeças todos os dias. Pais que arriscam uma travessia de milhares de quilómetros com crianças pelo braço para que os filhos possam ter o direito a sonhar. A respirar. A andar na rua sem terem medo de morrer a cada segundo. São pessoas que fogem de uma guerra que nunca tem fim. Que querem somente viver. Sobreviver. E nós, a geração mais bem preparada da História, olhamos pro lado?? Nós, que condenamos as Guerras Mundiais, os conflitos israelo-palestinianos, a guerra do Vietnã, do Iraque, o Holocausto, deixamos que a Alemanha seja atualmente um dos únicos países a realmente ter um plano de acolhimento para estas pessoas que não têm coisa alguma na vida a não ser a vontade de viver. Um desejo atroz de viver.

Nós, que achamos saber tudo, poder ter tudo, que somos invencíveis, estamos sendo postos à prova e falhando miseravelmente na única coisa que realmente importa: o amor ao próximo. A humanidade. A capacidade de nos colocarmos na pele do outro e entender uma coisa tão simples quanto essa: que tipo de pessoas somos nós que vemos outros correr e fechamos a porta na cara deles, sabendo que do lado de lá está a morte?

Que pessoas somos nós? Que humanidade é essa? Como estamos sendo melhores que os fundamentalistas que acreditam que a vida humana não importa?