Lisboa das coisas boas

Margarida Vaqueiro Lopes

09 Março 2015 | 16h05

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© Mar da Palha

Hoje de manhã, bem cedo, saí correndo do metrô bem no centro da cidade, para ir numa colectiva de imprensa. Geralmente eu perco essa luz bonita da manhã, que teima em brilhar sobre Lisboa, porque sempre estou dormindo – coisa de jornalista, que deita tarde e acorda tarde e que perde a parte mais bonita do dia, né? Pois é. Mas meu cérebro também precisa de dormir, e aí eu nem penso duas vezes.

Mas então. Saí correndo dessa estação de metrô, bem no meio da Avenida da Liberdade, onde os jacarandás começam a ter umas folhinhas anunciando a primavera, e num dia em que finalmente deixei os casacos de inverno em casa para aplaudir os 24 graus com que Lisboa nos presenteou.

Um monte de gente bonita estava chegando para trabalhar – a Avenida da Liberdade tem, provavelmente, o maior número de gente bonita e muito bem vestida por metro quadrado, nessa cidade. Lugar de escritórios de advogados, bancos e lojas de luxo, não tem como não parecer uma passarela. Na minha correria matinal, consegui ver os botões do porteiro do Hotel brilhando, o sapato lindo da mulher na minha frente, o casaco incrível do homem que passava com sua pasta de couro debaixo do braço.


Lisboa tem um encanto ainda mais especial na Primavera, quando o sol reflete na calçada portuguesa, as pessoas riem mais e os problemas ficam menores. Mesmo que a gente continue com um país em crise, onde o desemprego continua nos 13,3% e a taxa de pobreza escalou para uns alarmantes 19,5%.

Mesmo que Portugal continue atirando um monte de galera jovem para a emigração, e deixe muitas famílias à beira do desespero pela falta de oportunidades. Mesmo que a gente continue se queixando de tudo o que a gente não tem – gente!, como esse povo lamenta o que não tem e esquece de agradecer tudo que tem – Portugal continua a ser um país incrível.

Onde as praias se encheram de gente esse final de semana porque afinal o sol brilhou. Onde a gente toma um chope (aqui a gente diz uma imperial) por pouco mais de um euro e a vida sorri. Onde, no Norte, a gente encontra as paisagens mais lindas e os vinhos mais incríveis. E a sul, as paisagens mais lindas e os vinhos mais incríveis. Onde a gente sempre encontra um amigo passeando na rua, porque afinal o país é pequeno e sempre tem alguém que a gente sabe quem é.

Onde a gente recebe os amigos em casa com uma garrafa de vinho frisante, um pão português mesmo português, alguma comidinha simples e todos os problemas acabam. Portugal é um país incrível. E eu, que às vezes esqueço isso nessa minha vontade de saltar mares e oceanos e ir “pregar para outra freguesia”, hoje de manhã fui confrontada com essa certeza. A de que, apesar de “alguma coisa acontecer no meu coração / Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João”, também alguma coisa acontece no meu coração quando Lisboa me desperta e me sorri assim. Na sua beleza simples, iluminada.