Lisboa em modo Torre de Babel

Margarida Vaqueiro Lopes

06 Agosto 2015 | 14h14

Chegou Agosto e com Agosto chegou a Torre de Babel a Lisboa. A gente passeia na rua e escuta francês, inglês, alemão. Sentamos num restaurante para almoçar e é austríaco, holandês ou polonês. Nas lojas, português do Brasil ou espanhol. Nas praias, todas essas línguas juntas e ainda o italiano.

Lisboa tem um Verão incrível, e hoje é impossível sentir o que há uns anos se vivia durante o mês de Agosto: vazio e silêncio nas ruas da capital portuguesa. De há uns anos para cá, o turismo tem chegado em força para admirar essa cidade incrível que a gente tem e de que não me canso de falar. Turistas mexem na economia, economia animada cria empregos, empregos geram valor… bom, vocês sabem, não é mesmo?

Outro dia estava saindo de uma coletiva de imprensa, ali para os lados do Terreiro do Paço, e uma senhora italiana me pediu ajuda. Estava com um mapa aberto, caminhando pelo bairro, mas ela queria lojas. Eu falei que tinha a Rua Augusta, bem de frente para o rio e com um monte de oferta legal. Ela me falou que não tinha gostado das lojas ali. E que sabia que havia melhores em Lisboa. Achei curioso alguém ter falado de Lisboa para fazer compras, e disse então para ela subir até à Avenida da Liberdade, onde pode encontrar algumas das lojas de griffe: Dior, Louis Vuitton, Michael Kors e por aí vai. Ela ficou feliz – “era mesmo isso que eu queria” – e eu fiquei feliz, estranhando, no entanto, que houvesse uma italiana querendo comprar roupa cara em Portugal. Umas semanas depois, novamente perto do rio, duas meninas francesas me pararam. “Você pode nos dizer onde é a Primark?” Essa loja, inglesa, super barata e que faz as delícias de quem adora um bom negócio, abriu num conhecido shopping bem longe de onde elas estavam. Expliquei para elas isso, que me pediram somente “como a gente pode chegar lá?”.

E entretanto, eu pensava que turista afinal só vinha a Lisboa para fazer compras. Só que dois dias depois eu vi uma fila enorme para subir no elevador da Glória. E outra para entrar em museus. E outra para comer pastel de Belém. E filas de turistas na praia e mais filas de turistas pegando táxis e enchendo mesas de restaurantes. E hordas de turistas passeando pelas ruas mais legais de Lisboa. E teve até aquela noite em que fui jantar no Bairro Alto – a nossa Vila Madalena – e não ouvi pessoas falando português durante várias ruas. Tem quem comece a ficar de saco cheio com esses turistas que, dizem, “descaracterizam a cidade”.


E aí eu não consigo deixar de pensar: se os portugueses foram dar novos mundos ao mundo, como é que a gente pode não gostar de turistas?

Como é que Portugal, que se orgulha de ter estado em tanto país desbravando caminhos, não se orgulha de receber todo um mundo dentro de si?

 

[Aí em baixo deixo um dos nossos mais famosos fados, popularizado por Carlos do Carmo – que foi distinguido com um Grammy  Lifetime Achievement Award, no final do ano passado – interpretado por 35 músicos portugueses numa homenagem ao fadista e a Lisboa. Só para aguçar o apetite!:)]