Mais dois jornais acabaram. A democracia empobrece

Margarida Vaqueiro Lopes

03 Dezembro 2015 | 09h39

Essa semana começou com uma péssima notícia: o fim de duas publicações portuguesas, (ou pelo menos o fim delas como se conhece, mas sabe Deus o que acontecerá de agora em diante) ambas relativamente recentes, uma delas com muitos prémios e distinções no bolso. Duas marcas que se desvanecem e que de repente botam mais de 120 pessoas no olho da rua, assim mesmo, em vésperas de Natal.

Todo o mundo sabe que a crise nos media é um flagelo mundial: os EUA têm os números concretos do que tem acontecido, mas para países como Portugal – pouco dado à estatística – ou mesmo o Brasil, a gente não precisa de números para entender pelo menos um pouco do que está acontecendo. Há vários anos que tem havido passaralhos em todas as redações, quebra de salários, desinvestimento publicitário, media fechando portas porque os investidores estão disponíveis a perder dinheiro mas não tanto dinheiro.

Os jornais Sol (semanário) e i (diário), nasceram em 2006 e 2009, respetivamente. O primeiro queria fazer concorrência ao jornal semanal de referência em Portugal, há muitos anos, o Expresso. Mas nunca esteve sequer perto de o conseguir – nos melhores tempos vendia uns 50 mil exemplares contra os quase 100 mil do Expresso.

O i, nascido em 2009, em plena crise, já, teve altos e baixos e muitas direções (demasiadas) mas foi se afirmando no panorama nacional e encaixou vários, muitos prêmios de design, de jornalismo, viu vários jornalistas premiados, enfim… [por esse tenho um carinho especial porque tive a honra de trabalhar lá e ver de que fibra são feitos os jornalistas que precisam fazer omeletes sem ovos todos os dias].Do lado dos trabalhadores, os salários eram ridículos para as 12, 15 horas diárias que a edição exigia tendo em conta as limitações de pessoal – cerca de 30 jornalistas faziam um jornal diário de 45 páginas e ainda o suplemento de final de semana, com mais 45 páginas. Em muitos [na maior parte] dos casos, o salário não chegava aos mil euros mensais (quatro mil reais). E estou falando de jornalistas séniores.


Desde há cerca de dois anos, essas duas publicações eram propriedade de um grupo de media angolano. Nunca, enquanto fui jornalista do i, senti que isso fosse um problema – e tive, inclusivamente, que cobrir assuntos em que o principal acionista estava envolvido. No entanto, a gestão de ambos os jornais sempre foi desastrosa. Demasiados diretores, pouca publicidade, salários muito altos na direção e muito baixos em quem realmente estava na frente de trabalho, despesas descontroladas, excessos, enfim.

À má gestão, se juntam as alterações por que o setor da informação está passando atualmente, com os leitores a não querer pagar por informação que podem ter de graça na internet, e portanto, com os anunciantes a colocar o dinheiro onde estão os leitores – você não está pagando, nesse momento, para ler o que eu estou escrevendo, certo? Pois é.

É preciso repensar todo o modelo de fazer informação, tal como é preciso repensar a importância dos jornais e dos jornalistas no mundo atual. E lamento, mas não há blogues que substituam os jornais, nem blogueiros que substituam jornalistas. Não há porque as regras deontológicas, porque o que nos move, a nós, jornalistas, não é o dinheiro – garantidamente não é o dinheiro – mas a verdade. E isso nos torna isentos, sérios e necessários.

Deixo para vocês uma reflexão muito séria sobre esse assunto feito por um jornalista português que resume bastante bem o que está em causa atualmente, e que nos relembra como Thomas Jefferson, há tantos anos, já chamava a atenção para a importância dos jornalistas no mundo.

Com o fecho de jornais, perde-se democracia. Perde-se liberdade. Perde-se verdade. É importante que todos nós entendamos isso de uma vez por todas. Aqui, aí ou em qualquer outro continente.
PS. Nessa segunda-feira, porém, foi lançada também uma nova publicação nas bancas portuguesas. A Forbes Portugal chegou às bancas, sendo pela primeira vez editada no país. Uma pequena réstia de esperança nesse mundo ridículo em que se tem transformado o jornalismo um pouco por todo o mundo.

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