Mulheres sem carreira: a culpa é dos maridos

Margarida Vaqueiro Lopes

10 Novembro 2015 | 08h55

A briga é antiga e transversal a praticamente todo o mundo: as mulheres têm mais dificuldade em ascender na carreira, e em parte o mundo empresarial lhes diz que é culpa de poderem ser mães. Só que parece que quem realmente trava a subida das mulheres à liderança não são os filhos, são os maridos, os homens. E a culpa, por vezes, é da própria mulher.

O El Pais compilou uma série de estudos que apontam precisamente nessa direção: num casamento, a carreira do homem é sempre prioritária em relação à da mulher. Os homens passam menos de metade do tempo que as mulheres gastam cuidando da casa e dos filhos. As mulheres se resignam a estagnar profissionalmente em algum momento da vida.

Esses números vêm confirmar aquilo que há uns dois anos a diretora de operações do Facebook, Sheryl Sandberg, falou numa entrevista: a decisão mais importante que uma mulher toma na vida é com quem se casa. Basicamente, porque a sociedade ainda é muito machista, é mal visto que seja a mulher a ter mais horas de trabalho, a não estar em casa mais cedo, a estar fora durante mais tempo. É mal visto que possa ser um homem a decidir ficar em casa para tomar conta das crianças e ainda pior é se a mulher ganhar um salário mais alto que um homem.

Nem é uma coisa de que muita gente se dê conta, conscientemente. Mas é a verdade. Porque na hora da promoção, se eu tiver a mesma chance que meu colega homem, o diretor vai escolher ele. Sabe porquê? Porque na cabeça do diretor, eu preciso estar em casa mais cedo para fazer o jantar, pegar as crianças no colégio ou fazer faxina. Aliás, como ainda não tenho filhos, o grande problema, agora, seria a possibilidade de engravidar e estar fora uns meses – impensável.


Façamos outro exercício: se pensarmos num presidente de uma empresa que tenha quatro filhos e uma mulher em casa, cuidando deles, todos achamos que ele é um incrível gestor, pai de família e ainda marido extremoso porque nos finais de semana, pelo menos, guarda tempo para passar com a família. Se esse presidente for uma mulher com os mesmo quatro filhos e o marido em casa, todo o mundo, sem dar conta, está pensando que ela é uma egoísta que só pensa na carreira e não está nem aí para a família…gente!, estamos no século XXI!

E a verdade é que quando uma mulher tem do seu lado um marido bem incrível – portanto, bem escolhido – ela pode ser uma líder melhor que muitos homens. Para isso é preciso que o marido a respeite, a ajude, tenha noção de que a sua carreira é tão ou mais importante que a dele. Para isso é preciso quebrar cânones impostos, ideias feitas e preconceitos. É difícil, mas pode acontecer. Esse é, possivelmente, o primeiro passo na mudança de mentalidades que fará do mercado de trabalho um lugar muito mais igualitário para homens ou mulheres.

Imagem retirada da internet

Uma mudança que começa em casa, quando todos começarmos a explicar aos nossos filhos que nem sempre é o homem aquele que tem que trabalhar mais, ganhar mais e estar mais tempo fora. Só crescendo assim os homens de amanhã vão poder ser os maridos de que as mulheres guerreiras precisam. Sem preconceitos.