Não quero viver mais nesse mundo

Margarida Vaqueiro Lopes

12 Agosto 2015 | 07h29

Outro dia, aqui em Portugal, uma mãe abandonou fugiu do hospital com um bêbê recém-nascido. A criança tinha acabado de nascer, e a menina de 28 anos simplesmente desapareceu com a criança. Uns dias depois, regressaria ao hospital, “arrependida de o ter levado”, e pedindo para a equipe médica ver se estava tudo bem com a saúde do bêbê. Ontem mesmo, foi noticiado que uma mãe abandonou os seus dois filhos gêmeos recém-nascidos na maternidade. A mulher simplesmente saiu do hospital e deixou as crianças abandonadas.
Segundo a lei portuguesa, abandonar uma criança num hospital não é crime, uma vez que não coloca em causa a integridade física dela. No entanto, naturalmente o progenitor que o fizer pode perder a guarda do bêbê.

Olhando para essas notícias – que seriam notícia mesmo que a gente não estivesse na silly season – eu fico pensando: o que leva uma mãe a colocar em causa a saúde da criança, ao fugir com ela da maternidade, ou a abandonar os seus filhos assim que eles nascem?

Tudo bem, eu sei que não sou mãe, ainda, e que não conheço a história de vida dessa galera. Mas ainda assim, acredito que não haverá maior amor na vida do que aquele que um pai tem por um filho. Mal comparado, eu sei o amor incondicional que sinto pelos meus sobrinhos, e eles são somente filhos das minhas irmãs. Colocar a sua vida em risco, abandoná-los, era coisa que nunca, jamais, me passaria pela cabeça.

Pode ser aquela coisa de que “no hospital estão melhor do que comigo”, não é mesmo? Mas gente, tem um monte de associação que apoia essas mães em dificuldades. Tem os serviços sociais. Tem um monte de recursos – a família? – que não deveriam ser esquecidos quando se trata de um ser indefeso. É melhor abandonar a criança do que pedir ajuda? Que é isso?


Onde está a nossa ética, a nossa moral, onde está a nossa educação? Abandonar crianças é uma tradição que vem de longe – lembram aqueles mosteiros que tinham a roda dos bêbês para as mães que não podiam ficar com eles e as deixavam ao cuidado das freiras? – mas eu queria acreditar que atualmente, com toda a informação e com todas as alternativas existentes na sociedade, essas questões deixavam de acontecer. Saber que abandonar crianças ou não zelar pela sua saúde e segurança acima de tudo não é uma prioridade para todo o mundo continua a me deixar agoniada. Saber que somos uma sociedade incapaz de dar a essas mães a ajuda que elas precisam – tendo em conta que elas continuam a abandoná-los, me vejo forçada a acreditar nisso – me deixa ainda mais agoniada. E triste.

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