Ninguém nos ensina a lidar com a frustração

Margarida Vaqueiro Lopes

10 Fevereiro 2016 | 09h16

Outro dia meus sobrinhos – de 8 e 4 anos – estavam assistindo televisão em casa dos meus pais. A gente sempre passa o Natal na casa onde não existe tv por cabo, o que significa que não há uma box de gravação de programas, não há possibilidade de saltar intervalos, comerciais, enfim. Na verdade, a gente já nem liga. Quando estamos todos juntos os comerciais são uma boa altura para bater um papo – a tv aberta em Portugal adora fazer intervalo de 15 minutos, então dá tempo até para fazer uma refeição. Mas os meus sobrinhos surtaram quando pediram que a gente passasse os comerciais e alguém respondeu, com toda a naturalidade: “aqui não dá. Vai ter que esperar, mesmo”. De repente, havia choro, ranger de dentes, fúria incontrolada porque não entendiam o conceito de “esperar que o intervalo acabe”.

Na altura até dei alguma risada, pensei que realmente eles já nasceram numa outra época – afinal, Portugal é líder europeu no que se refere à fibra ótica o que faz das nossas televisões e ligações de internet em casa uns Ferraris das telecomunicações – e ignorei o drama. Mas depois fiquei a pensar no assunto… juntei isso aos surtos que vejo várias crianças ter sempre que um tablet fica sem bateria ou que alguém lhes diz para trocar os gadget por um livro. Sempre que têm que esperar para ver mais desenho animado. Sempre que há algo que não acontece na velocidade que eles consideram apropriada. E dei conta de que é nestas pequenas coisas que estamos despreparando pessoas para lidar com as frustrações. Os meus sobrinhos – e as crianças da sua geração – não sabem esperar. Não gostam de ouvir não. Quantas vezes eu já ouviu crianças dizerem “mãe, compra aquilo para mim”. A mãe diz que não tem dinheiro e a criança diz: “Trabalhe mais, então”. Errr…Sério, mesmo?

Cada vez me identifico mais com os pediatras – nomeadamente um bastante renomado em Portugal, Mário Cordeiro – que defendem a importância do ‘não’ na vida das crianças. Esses ‘não’ vão ser muito relevantes para quando, não havendo a proteção dos pais, os adultos em que se tornarem saibam viver uma vida que tem muitos mais ‘não’ que ‘sim’ no caminho. E pode começar por coisas tão simples como abolir o botão do controle que permite que a gente retire do caminho aquilo para o qual a gente simplesmente não tem saco. Ver comerciais, me apercebo agora,  pode ser muito relevante para a nossa vida adulta. Quem diria…


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