O descaso rumo a um novo governo.

Margarida Vaqueiro Lopes

24 Setembro 2015 | 12h40

A pouco mais de uma semana de eleições legislativas aqui em Portugal, o clima começa a esquentar. Na corrida está o atual premiê, Pedro Passos Coelho, que há quatro anos substituiu José Sócrates e que governou sob a mão da troika internacional – Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia. Líder do PSD, partido de centro-direito, e que concorre em coligação com o CDS/PP, o nosso partido mais à direita.

Do outro lado, António Costa, antigo prefeito da cidade de Lisboa, conhecido político do Partido Socialista, o partido de centro esquerda.

Partidos mais pequenos também estarão a votos, mas a verdade é que são esses quem realmente está combatendo pelo governo dos próximos quatro anos. Só que o discurso tem sido absolutamente errado, quer de um lado quer de outro. As propostas eleitorais são vagas, os discursos são de mais acusação do que de projetos par ao futuro, os números que uns e outros apresentam para fundamentar suas campanhas não batem certo e os debates também deixaram muito a desejar: acusações sobre quem criou a dívida, quem aumentou o défice, quem fez assim mas deveria ter feito assado. Mas aí quando a gente pergunta: “tá bom!, então como o senhor faria diferente?”, a verdade é que ninguém responde.

Ontem, ao chegar em casa, estava falando com uma grande amiga sobre as eleições, no celular. Meia hora depois, a conclusão foi a mesma: ainda nenhuma de nós – de espetros políticos diferentes – sabe em quem deve votar. Por um lado, a austeridade doeu em todo o mundo, e esse governo parece não saber exatamente o que fazer agora. Agora, que é hora de reformas estruturais reais, de diminuição de despesa do Estado, de fazer as mudanças que podem impactar no longo prazo o país.


Do outro lado, o regresso do partido que fez Portugal precisar de um resgate também não é uma ideia apelativa. Para além de que o PS sempre teve uma relação complicada com a comunicação social, o que, digamos, é um pouco chato… No meio, um monte de partidos com bons deputados que seria importante ter no Parlamento, que tiveram boas prestações esse ano, que serão capazes de fazer séria oposição ao próximo governo. Mas devemos usar os votos para lhes dar voz, ou para evitar que um ou outro partido que tem reais hipóteses de governar chegue no poder?

Essa campanha, essas eleições ficam marcadas por assuntos muito sérios: a queda do BES e a criação do Novo Banco; a prisão do antigo premiê José Sócrates; o caso dos vistos gold; o aumento do défice; a quebra do desemprego; o aumento das desigualdades; o fecho de escolas e hospitais por causa da austeridade; os impostos…e o que mais custa é perceber que ninguém, nenhum partido político está fazendo aquilo que, mais do que essencial, é o seu trabalho: explicar às pessoas o que vai fazer e COMO o vai fazer. Se comprometer com o povo e não com o partido, com os votos, com os interesses pessoais.

E me preocupa o país em que nos estamos transformando devido a todo esse descaso. Me preocupa que possamos ser nós, também, que continuamos a legitimar essa péssima classe política, por inação. Em Portugal o voto não é obrigatório – mas eu realmente acho que deveria ser. Então, aposto com vocês em como a abstenção vai aumentar, e em como os próximos governantes serão eleitos por cerca de metade dos portugueses, somente. “É o que os políticos merecem”, diz quem não vota. Eles serão o que nós merecemos, pela inacção, também. Verdade?