O dinheiro português

Margarida Vaqueiro Lopes

07 Abril 2015 | 08h00

Essa semana faz quatro anos que Portugal entrou no chamado programa de ajustamento. Que é como quem diz, o país foi alvo de resgate financeiro pela troika internacional – um time formado pelo Banco Central Europeu, Fundo Monetário Internacional e Comissão Europeia. É difícil esquecer aquele dia de Abril de 2011 em que a meio da tarde há uma comunicação urgente do governo português: o país estava à beira do colapso e pediu ajuda internacional. Algo que a gente vinha adiando e dizendo não ser necessário há uns dois anos, no mínimo.

Foram quatro anos bem duros para Portugal – o programa de ajustamento terminou em Maio do ano passado, está quase fazendo um ano – e a gente ainda não sabe bem como está o país. Estruturalmente todo o mundo tem o mesmo receio: que voltemos a fazer os mesmos erros que nos levaram a precisar de ajuda do exterior. Essa foi a terceira vez que Portugal precisou de ajuda, em trinta anos… O desemprego aumentou consideravelmente, os salários desceram, os impostos aumentaram, a vida ficou bem mais difícil para todo o mundo, de um momento para o outro. Objetivamente falando, foi isso.

Também é verdade que o país não podia estar fazendo a vida que fazia – a gente sempre gastou mais do que tinha, e se financiava com novos financiamentos. O problema é que apesar de agora as contas públicas parecerem mais equilibradas, ninguém sabe bem o que fazer.

Como consequência dessa crise, que acabou por revelar muito do que estava podre por aqui, a gente viu colapsar um dos maiores bancos privados portugueses – o Banco Espírito Santo, casa mãe do BESI Brasil, que tem sede aí em São Paulo –, e ficamos sem a maior telefônica do país, a PT. A gente a perdeu para esse lado, também, para as mãos da Oi. Outro banco foi alvo de uma Oferta Publica de Aquisição – mas ninguém sabe o que vai acontecer, ainda. A TAP está em vias de ser vendida, parte da EDP (a elétrica nacional) passou para a mão de investidores chineses tal como a maior seguradora do mercado. Um monte de empresas fechou, outro monte de empresas abriu e de repente Portugal é um país de empreendedores e de emigrantes.


Tanta gente que foi por esse mundo fora em busca de vida melhor. Muitos já voltaram, outros tantos não querem nem ouvir falar de regresso, que a gente ainda tem nos genes essa coisa de povo que vai em busca de novos mundos sem ter que ter sempre saudade de casa. Houve um monte de gente que até tentou a sorte desse lado do Oceano e depois se deu conta que mesmo com tudo difícil, Portugal tem um monte de coisas que um país estrangeiro não pode oferecer. Muitas vezes me perguntam como está a economia por aqui: o turismo está sendo um sucesso – o clima dá sempre uma ajudinha – , a Ásia e a África adoram investir em Portugal e sinceramente, eu acho que houve coisas boas em todo esse processo de três anos.

Acho que pelo menos agora os portugueses têm um pouco mais de esperança – dentro do pouco, que português não é povo otimista não. E quando há esperança, a chance de sucesso aumenta. Mas em termos de economia? Bom, se vocês vierem passar férias aqui sempre dá uma animada na liquidez, e garanto que é mais barato passar um mês aqui que duas semanas em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Desses três anos não vai ficar a memória de como foram sofridos, porque a natureza sempre protege a gente da memória da dor.

Ainda é cedo para dizer como está a economia portuguesa, na verdade. Mas já há sinais de melhoria que não podem ser ignorados: os preços recomeçaram a subir e a procura se manteve; vários inquéritos revelam que as pessoas estão gastando mais em bens não essenciais; os juros da dívida estão baixando – vamos ver, a médio prazo, se isso é bom -, os bancos estão novamente concedendo crédito…tudo, por norma, bons sinais.

O mercado imobiliário está novamente mexendo depois de uns anos de estagnação, o euro está mais baixo o que atrai mais estrangeiros, os restaurantes recomeçarma a encher, Lisboa e outras cidades se enchem de estudantes estrangeiros que procuram Portugal para viver, ajudando inevitavelmente à economia. A vida das pessoas melhorou um pouco – ou as pessoas se acostumaram a viver com o menos que tinham, a gente ainda não sabe bem.

Eu acreditarei que tudo está melhor se daqui a vinte anos a troika ou o FMI ou a Europa não precisarem de vir correndo com mais um cheque para salvar a gente de nós mesmos.