O próximo todo poderoso da ONU poderá falar português

Margarida Vaqueiro Lopes

01 Abril 2016 | 13h42

António Guterres, antigo ministro de Portugal (1995-2002), está se candidatando ao cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), como sucessor de Ban Ki-Moon. Guterres ocupou, até Dezembro do ano passado e durante dez anos, o cargo de Alto Comissário da ONU para os refugiados, o que significa que enfrentou uma das maiores crises de refugiados desde a II Grande Guerra.

Entre vários outros países, é expectável que a candidatura do antigo premiê português tenha o apoio do Brasil, e consequentemente dos restantes países da América Latina, uma vez que por norma, é o gigante sul-americano quem dita os destinos da preferência.

Além disso, ter como secretário-geral uma personalidade que fala português pode agradar a vários continentes: de África, o maior apoio deverá vir de Angola – apesar de as relações terem estado tremidas no final do ano passado, dificilmente o país de José Eduardo dos Santos apoiará outro candidato – da América do Sul, conta-se com o carinho brasileiro; da Ásia, o apoio virá, possivelmente, de Timor-Leste. Afinal, Guterres foi uma das figuras políticas mais ativas no processo de independência de Timor, no final da década de 1990. E da Europa, enfim, pelo menos Portugal e Espanha, naturalmente.

Pela primeira vez, haverá uma espécie de debates presidenciais, com os candidatos a serem ouvidos em Nova Iorque e em Londres, e tendo que responder a perguntas dos 193 países que pertencem à ONU bem como da comunidade civil. É certo que a política está pegando fogo no Brasil e que nos EUA as eleições presidenciais estão super apetecíveis de acompanhar. Mas também é muito verdade que a escolha do secretário-geral da ONU deve ser feita com a maior serenidade e sentido de responsabilidade – lembremos que é ele quem tem o dever (e o poder) de convocar o Conselho de Segurança em caso de iminente ameaça à paz e segurança internacionais, e no fundo, tem que ser um diplomata por excelência.


Os candidatos

Mas há muita gente para escolher: socialmente, o cargo já está pedindo uma mulher. Natalia Gherman, reconhecida política da Moldávia, é uma forte candidata, até porque a Europa do Leste também já é uma das regiões favoritas como origem para um próximo todo-poderoso da ONU. Gherman tem sido super ativa na ONU, lutando por várias questões de direitos humanos e igualdade de gênero.

Vesna Pusic vem da Croácia, onde foi primeira-ministsra e ministra do Exterior e segundo o jornal britânico The Guardian, tem “credenciais pro-democracia impecáveis”. Tem sido uma ativista dos direitos LGBT e defensora do ocidente – o que não agradará a Moscovo, salienta a mesma publicação.

Irina Bokova é outra conhecida candidata ao cargo. Essa búlgara é diretora-geral da UNESCO e tem a seu favor estar há muitos anos num alto cargo e ter boas relações com a Rússia, que é membro permanente do Conselho de Segurança e cujo voto é relevante.

Mas Guterres terá ainda pela frente o esloveno Danilo Türk, que teve um papel significativo ao ter escrito o rascunho da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, na década de 1980. Foi presidente da Eslovênia entre 2007 e 2012. Igor Luksie é o candidato de Montenegro, e ainda não tem 40 anos. O ministro do Exterior desse pequeno país é um intelectual respeitado que pode ser uma ‘pedra no sapato’ de Guterres.

A Macedónia também entra na disputa, com Rgjian Kerim a querer suceder a Ban Ki-Moon. Já ocupou o cargo de presidente da Assembleia Geral da ONU e fala nove línguas…uma vantagem e tanto.

Até ao final do ano, a ONU terá um novo todo-poderoso. Resta saber se ele falará muitas línguas ou se poderá ter como língua-mãe uma das mais faladas de todo o mundo.