O quê? Quem? Quando? Onde? Porquê? Como?

Margarida Vaqueiro Lopes

20 Julho 2016 | 18h38

Quando estava estudando, uma das primeiras coisas que aprendi foi que o jornalismo tinha que responder a seis questões, de caras: O quê? Quem? Quando? Onde? Porquê? Como? A ordem pode variar, mas são essas as respostas que um leitor deve encontrar num texto jornalístico, de preferência entre o título e o lead (ou lide) da notícia, que é o termo dado àquele primeiro parágrafo super informativo.

Quando eu olhava para os jornais, na época, todos eles – salvo raras excepções – cumpriam essa regra básica. Elas explicavam o que aconteceu, quem envolveu, quando, onde, porquê e como aconteceu determinado fato. Se elas não respondessem a isso, alguma coisa estava errada: ou a matéria estava mal apurada ou não era notícia e não fazia sentido estar ali.

O que a gente vê hoje, no entanto, com a ascenção das redes sociais e da necessidade de captar ‘likes’ e consequentemente visualizações para os respetivos sites, é o jornalista esquecer de qual a regra mais elementar da profissão e, ajudado pelos ‘gestores de conteúdos’, que hoje em dia também fazem as vezes dos jornalistas, escreverem as maiores barbaridades.

Dê uma olhada no sue Facebook ou Twitter, procure alguns meios de comunicação e olhe os títulos das notícias. Depois abra as ligações e veja quantas delas dão informação realmente relevante antes do segundo parágrafo. Nos piores casos, veja quantas ‘notícias’ são absolutamente ‘não notícias’ – é o caso dos textos gênero ’10 lugares para passar férias’ ou ‘Sabe porque deve comer cenoura?’.


Aumentou também exponencialmente o número de matérias sobre temas tão interessantes quanto: ‘Cristiano Ronaldo deixa mensagem aos fãs nas redes sociais’ ou ‘A discussão entre Kim Kardashian e Taylor Swift incendiou o Twitter’. Matérias que há uma década não ganhariam mais que uma coluna na imprensa marron, hoje quase manchetam em jornais de referência. E claro, quando a política ou a economia aparecem, elas são consideradas assuntos chatos que ninguém quer ler. Então, a gente coloca novamente Cristiano Ronaldo na manchete para não perder leitores. E outra regra básica do jornalismo – a gente não tem que dar ao leitor o que ele quer ler, mas o que ele precisa de ler – também é enterrada, sem problema, como se um meio de comunicação social fosse o mesmo que um blogue ou uma coluna de opinião, em que as regras não são unânimes porque são ditadas por quem os escreve.

E assim o jornalismo vai perdendo – e estou aqui aproveitando para fazer mea culpa -, de cada vez que nós, jornalistas, sucumbimos às ‘ordens’ superiores, temendo uma demissão (por escrever bem uma notícia?); de cada vez que queremos mais ‘likes’ ao invés de melhores leitores e melhores cidadãos; de cada vez que usamos títulos interrogativos para obrigar os leitores a abrir uma matéria que pode ser o oposto daquilo que apregoa.

Consequentemente, nessa falta de respeito pela responsabilidade que é pedida a todos os jornalistas, editores, diretores, enfim, a sociedade perde ainda mais: perde a oportunidade de formar cidadãos conscientes, bem informados, bem preparados que sejam estupidamente exigentes com os governantes, e que não se deixem enganar pela propaganda fácil. Nessa falta de responsabilidade que vivemos, perdemos nós, cidadãos do mundo, porque é mais fácil ler uma matéria sobre a Kardashian do que [mais uma] uma matéria sobre corrupção.

E depois a gente se admira quando os leitores dizem que os jornalistas são horríveis – meu pai adora dizer isso, mesmo estando sentado na minha frente. E às vezes a gente tem que admitir que até é verdade..somos horríveis sempre que falhamos miseravelmente duas regras básicas da profissão. Porque se a gente falha essas, imaginem as outras…

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