“Olá!, um café e..tem wi-fi?”

Margarida Vaqueiro Lopes

15 Outubro 2015 | 07h49

Antes era uma pergunta só de turista, e todos nós olhávamos de lado quando alguém perguntava. Agora é a pergunta de todo o mundo, e na verdade já ninguém liga. “Tem wi-fi?” é, por norma, a segunda pergunta de qualquer pessoa que entre num boteco (café), restaurante ou padaria (pastelaria) aqui em Portugal. Aliás, a wi-fi está até sendo utilizada como chamariz para a clientela.

Outro dia, passeando em Belém, olhei para o outdoor de um restaurante que dizia: “Vende-se hambúrgueres. Águas. Hot-Dog. Sucos. Wi-fi”. Pensei em entrar para perguntar por quanto me venderiam a wi-fi só para tirar um pouco de sarro deles, mas decidi ser uma cidadã menos chata e deixar passar. Na verdade, tão pouco me interessava, uma vez que eu não faço essa pergunta a não ser quando – lá está! – sou turista e estou viajando para o estrangeiro onde não tenho meu próprio pacote de dados e quero falar oi para família.

É verdade que tenho a wi-fi ligando automaticamente em alguns lugares onde vou mais regularmente – o meu tráfego não é ilimitado, e se puder poupar algum dinheiro, porque não? – mas é raro me verem pedindo a pass da internet. E porquê? Porque acho realmente que estamos ficando dependentes da ligação ao mundo exterior ao invés de estarmos dependentes da pessoa com quem nos vamos encontrar no restaurante, boteco ou padaria para conversar. Primeiro achava um drama que houvesse lugares com aquela plaquinha dizendo “não temos wi-fi. Conversem”. Mas hoje sou super a favor. Aliás, estou me treinando para desligar meus dados sempre que vou fazer me encontrar com alguém.

Já entraram num restaurante e gastaram alguns minutos olhando para as pessoas que estão na mesa? Famílias inteiras olhando para as telas sem falarem uns com os outros. Casais em silêncio, postando fotos incríveis do jantar romântico no Facebook, mas que nem falam um com o outro (romântico, hum?). Já deram conta de que passamos horas no sfoá, na cama, agarrados a celulares e esquecendo de conversar com quem está do nosso lado?


Por esse dias, o fotógrafo Eric Pickersgill fez um trabalho incrível sobre essa dependência que a sociedade está criando dos celulares, nomeadamente dos smartphones. Na série ‘Removed’ – pode ver aqui – Eric fotografou as pessoas em casa, na rua, no trabalho, retirando o smartphone da imagem. Olhe só o quão ridículos somos por vezes? Repare nas situações de risco – dirigindo, andando sem ver por onde – em que a gente se coloca só para não perder dois minutos de vida virtual. Olhe a porção de vida real que estamos perdendo enquanto isso.

Portugal tem uma taxa de utilização de internet elevada – 65% das pessoas se liga regularmente à rede – e é óbvio que eu acho isso incrível. Aliás, de outra forma, não poderia estar escrevendo, de Lisboa, para vocês lerem aí em São Paulo assim que eu clicar no botão ‘publicar’. Mas temo que estejamos perdendo a noção do mundo real. E gostaria muito que as pessoas entendessem que é possível viver sem internet algumas horas por dia. E que a vida, que lhes passa diante dos olhos, nem sempre tem que ficar registrada numa foto. Ou na Internet para todo o mundo ver. Excepto a própria pessoa.