Onde a vida acontece

Onde a vida acontece

Margarida Vaqueiro Lopes

23 Março 2018 | 13h05

Barragem do Cabril – Pedrogão Grande

Há uns tempos fui, com alguns amigos, passar o final de semana até ao centro do país, a um dos lugares mais atingidos pelos incêndios de Outubro passado. Entre várias coisas que fizemos, ajudamos a plantar vários pinheiros numa tentativa de reflorestar alguns hectares de terreno enegrecidos pelos fogos. As árvores mortas tinham sido já cortadas e havia gente limpando o terreno, enquanto nós tentámos dar o nosso melhor colocando aqueles pequeninos pinheiros na terra, quase irrisórios pontinhos verdes despontando em toda aquela negritude. A morte e a vida juntas e nós fazendo parte da vida. Incrível.

Bom, mas na verdade aquilo de que queria falar é sobre as pessoas maravilhosas que a gente encontra sempre que saímos de Lisboa. Não é que na grande cidade não haja pessoas maravilhosas, só que a disponibilidade, a generosidade, as vivências que as gentes têm são absolutamente diferentes. Muitas vezes a gente encontra nas grandes metrópoles – acontece em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e claro, em Lisboa – aquela sensação de que tudo o que é importante está ali. Que a gente não precisa de mais nada, que é preciso estar na ‘grande cidade’ para estar vivendo a vida real. Tendemos a ignorar as cidades do interior, aquelas mais pequenas que não mexem tanto dinheiro ou tanta gente como fazem as maiores. Achamos que as pessoas que não vivem na cidade sabem menos, importam menos… E aí você vai lá e descobre que a vida, apesar de passar menos corrida – ou talvez por isso mesmo – é realmente vivida. Há tempo para admirar os detalhes, sejam da natureza ou da arquitetura espaçosa. Há tempo para conversar, para saber como cada um se sente, para aprender com os mais velhos e nos emocionarmos com os mais novos. Há espaço para caminhar, respirar ar puro e entender os ciclos da natureza.

Mesmo quando a força dos elementos tornou tudo preto e morto, a gente chega, e entre as lágrimas de tristeza pelo que perderam, aquelas pessoas nos mostram como são os sorrisos de quem acredita que tudo poderá voltar a ser ao que era, porque é assim a natureza, feita de mortes e de vida. E sempre que saio das grandes cidades portuguesas – que são bem pequenas para os padrões brasileiros, como vocês sabem – sou confrontada com essa simplicidade de uma vida de que, acredito, todos nós deveríamos poder desfrutar um pouco. Adoro me perder nas estradas nacionais que atravessam o país, olhar as paisagens que nem sempre lembro que existem e me apaixonar de novo por terras que têm tanto para dar. Bons restaurantes, tesouros arquitetónicos, maravilhas naturais e claro, as gentes, minha verdadeira descoberta dos últimos anos. E claro, a lembrança de que a vida afinal acontece longe do bulício onde eu adoro viver.


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