Panama Papers fazem tremer todo o mundo

Margarida Vaqueiro Lopes

05 Abril 2016 | 12h23

Há umas semanas escrevi aqui sobre o filme ‘Spotlight – Segredos Revelados’ e sobre a importância do jornalismo de investigação para a sobrevivência das democracias, lembram? Aliás, o tema tem estado em agenda à medida que vão fechando jornais um pouco por todo o mundo, alguns dando lugar projetos online, outros desaparecendo verdadeiramente.

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Essa semana estamos assistindo a mais um incrível caso de jornalismo investigativo, com o caso Panama Papers, que revela como inúmeras figuras relevantes do poder mundial fogem aos impostos e lavam dinheiro através de sociedades off-shore. O caso está, naturalmente, repercutindo em todo o mundo, uma vez que os mais de onze milhões de documentos se referem, também a praticamente todos os países do mundo!Por que eu estou falando disto? Porque são casos desses que podem fazer as pessoas entender a importância do jornalismo! Não o jornalismo marron, aquele que é tantas vezes replicado e “feito” pelos blogues que nada têm de informativo. Não o jornalismo da cópia, das pautas que são ‘vendidas’ através das coletivas de imprensa e dos inúmeros press-release que passamos o tempo a receber.

Essa investigação – possível também porque feita em rede, com jornalistas de alguns do melhores jornais de cada país – levou mais de um ano a ficar pronta, e continuará a ser feita. Essa investigação retira das pautas diárias jornalistas em vários países – em Portugal, o Expresso e a TVI são os membros da parceria internacional de jornalismo investigativo; obriga a um trabalho muito sério, muito comprometido e feito por quem sabe. Sim, é mesmo verdade que nem todo o mundo pode ser jornalista. É mesmo verdade que as redes sociais não contam tudo e muitas das vezes não contam bem as coisas às pessoas. Sim, é mesmo verdade que apesar de ninguém parecer acreditar, o jornalismo sério, credível e respeitável continua vingando, ainda que seja mal (pessimamente!) pago, ainda que as horas de trabalho sejam ridículas, ainda que ninguém dê crédito ao trabalho que é feito em redações. Sim, a democracia – as democracias – ganham e florescem com trabalhos destes. Sim, o jornalismo é preciso, porque ainda é com jornalistas (alguns) que falam os Snowden desse mundo, as fontes ligadas a firmas como a Mossak Fonseca. Porque ainda são os jornalistas (alguns) que conseguem descobrir a diferença entre uma boa história e uma história que na verdade não a é, ou que é pura publicidade. Ainda são os jornalistas (alguns) que fazem as perguntas incómodas, porque não estão à espera de, em troca, ter mais visualizações ou convites das marcas para viajar.


O caso Panama Papers ainda está no início. E até é possível que nem mude grande coisa no mundo – como já aconteceu com o LuxLeaks ou o OffshoreLeaks. Mas sem ele, garantidamente se faria ainda menos!

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