Portugal de luto pelo “inventor da democracia”

Margarida Vaqueiro Lopes

09 Janeiro 2017 | 10h28

Morreu Mário Soares, antigo presidente da República portuguesa, como já saberão.

Um dinossáurio da política, Soares foi, sobretudo nos últimos anos, odiado por muitos portugueses. Sobretudo pelas gerações mais novas, que viveram os anos menos incríveis de Mário Soares. Autor de muitos erros – e época da descolonização talvez seja a que mais marca pela negativa a trajetória do estadista – como é natural num político de carreira, Portugal deve muito a Soares, ainda assim.

Imagem retirada da internet

Antes de deixar abaixo duas ligações para textos de pessoas que privaram com Soares e que bem melhor do que eu podem contar para vocês a história do socialista, importa dizer isso: é a Mário Soares que Portugal deve a sua atual liberdade. Após o 25 de Abril, foi ele quem com mão bem firme evitou que o país caísse na mão do comunismo, lutando sempre sem parar pela liberdade. Se hoje há gente que pode odiar publicamente Mário Soares, é a ele que deve essa possibilidade.


Enquanto advogado, defendeu vários opositores ao regime ditatorial de António Oliveira Salazar, foi preso 13 vezes e teve que viver no exílio.

Em 1978, Soares chocou a esquerda portuguesa afirmando que o socialismo teria que esperar, porque era preciso, urgentemente, recuperar a economia nacional. Mas foi ele, também, que permitiria mais tarde que o socialismo florescesse, depois de garantir empréstimos junto da Alemanha para financiar os cofres do Estado.

Foi pela mão de Soares que Portugal entrou na União Europeia, então Comunidade Económica Europeia, no finalzinho dos anos 1980. Uma forma de garantir um regime democrático duradouro, e acabando de vez com a teoria do “orgulhosamente sós” implementada por Oliveira Salazar.

Eu já não sou do tempo desse Mário Soares. Eu sou do tempo de Mário Soares Presidente da República – é o primeiro de quem me lembro – e de Mário Soares decaindo na carreira, apoiando José Sócrates, sendo amigo de Ricardo Salgado, e perdendo eleições presidenciais. Sou do tempo de Mário Soares dizendo demasiadas baboseiras para podermos levá-lo a sério. Sou de uma geração que, na sua maioria, não gosta de Mário Soares.

Eu não concordo com muitas das coisas que ele fez, que ele defendeu e por que ele lutava. Mas jamais deixarei de agradecer a Soares a liberdade que me permite fazê-lo, o seu esforço para salvar Portugal da miséria e a sua coragem. Portugal está de luto, oficialmente, durante 3 dias. Todos nós devemos estar um pouco mais.

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