Portugal espera de braços abertos e coração pequeno

Portugal espera de braços abertos e coração pequeno

Margarida Vaqueiro Lopes

20 Outubro 2017 | 12h51

Desde o início da semana que estou pensando no que escrever no Sambando. Desde o início da semana que estou de coração fechado querendo e não querendo escrever sobre mais essa tragédia que de novo voltou a Portugal: os incêndios. Mas cheguei a hoje e entendi que tenho mesmo que escrever, para vocês entenderem por que agora, mais do que nunca, a gente quer a vossa visita.

No passado domingo, 15, mais de 40 pessoas morreram em Portugal, vítimas dos fogos violentos que voltaram a assolar o país. Não foi em Lisboa nem no Porto. Mais uma vez, as populações mais isoladas e necessitadas foram quem sofreu com essa tragédia. Pessoas, famílias inteiras perderam casas, carros e o próprio sustento, garantido tantas vezes pela terra: florestas, chácaras, sítios, fazendas enormes. Cerca de 80% do pinhal de Leiria, conhecido como pinhal do Rei, porque foi plantado por D. Dinis ainda no século XIII, ardeu. Era um dos pulmões do país. Muitos velhinhos ficaram sem nada, a não ser a roupa do corpo. Não têm forças para voltar a lutar, nem casa onde possam fazê-lo com dignidade. Não têm lugares onde sua memória esteja preservada, e muitos viram morrer os seus vizinhos, amigos, família.

Portugal está destroçado, mas enquanto os governantes decidem o que fazer e quando fazer, nós precisamos urgentemente olhar para essas pessoas: que são esquecidas todos os anos e lembradas (mal lembradas) quando acontecem coisas horríveis como essa. Então, qual o meu desafio? Se por acaso estiverem vindo para Portugal, não escolham apenas visitar Lisboa ou o Porto. Por favor, por favor, vão visitar o interior do país. Percam-se nas paisagens que, apesar de tudo, ainda continuam sendo belas. Escolham os restaurantes simples que são sustento de pessoas que decidiram não abandonar as terras para se perder no burburinho das cidades impessoais. Se alojem nos hóteis e nas pousadas menos conhecidas e quem sabe mais humildes, mas que apesar de tudo têm condições incríveis. Vão descobrir as aldeias recheadas de verdadeiros portugueses, artesãos, agricultores, onde o tempo é mais longo e mais puro.

Aproveito para fazer um mea culpa por divulgar pouco esses projectos do interior português: são eles quem vão mantendo vivas essas pessoas, esse pedaço de país que também é nosso. E me comprometo a fazê-lo mais a partir de agora – só espero que não seja demasiado tarde. Para que imagens como essa abaixo, do Presidente da República tentando consolar um velhinho que mais parece uma criança, chorando por tudo o que perdeu, não voltem a acontecer. Para que pessoas que tinham todo o direito a viver uma velhice descansada, não voltem a passar uma tragédia que lhes rouba o descanso nos anos em que mais precisam de repouso.


Por favor, venham a Portugal e nos ajudem a tornar verde e feliz e otimista o nosso país. Nunca, como agora, precisámos de um banho de alegria e da vossa aposta em nós.

 

©Nuno André Ferreira. Todos os direitos reservados