Portugal precisa gritar mais alto que as chamas

Portugal precisa gritar mais alto que as chamas

Margarida Vaqueiro Lopes

19 Junho 2017 | 06h59

É claro que já sabem o que aconteceu em Portugal esses dias: no sábado deflagrou um incêndio no distrito de Leiria, centro do país, que até ao momento já matou 62 pessoas. Escrevo esse texto a meio da manhã dessa segunda-feira (19), quando há quase mil pessoas combatendo as chamas. O incêndio tem ainda quatro frentes ativas e as autoridades seguem retirando pessoas das populações mais isoladas, onde até agora não foi possível chegar.

Acredita-se que o fogo começou devido a uma tempestade seca, no final da tarde de sábado, e os ventos fortes cruzados e as elevadas temperaturas transformaram as chamas num verdeiro inferno em muito pouco tempo. A região, longe dos grandes centros urbanos, é constituída por várias populações pequenas onde vivem sobretudo idosos, agricultores e algumas casas vazias de emigrantes que passam a maior parte do ano fora.

Houve várias vítimas mortais entre os que tentaram, nos seus carros, fugir de um fogo que cedo de mostrou incontrolável e praticamente invencível. Essa segunda-feira as imagens são um pouco mais animadoras, com alguma chuva a cair na região e a dar uma pequena ajuda aos bombeiros que estão no terreno. Apesar das ajudas internacionais – França, Espanha e Itália mandaram aviões para auxiliar Portugal –, a verdade é que as nuvens de fumo têm tão densas que tem sido difícil usá-las no combate às chamas.

Portugal, como sempre nessas ocasiões, arregaçou as mangas para ajudar como pode aqueles que vão lutando contra essa tragédia: já há contas solidárias para apoiar as vítimas; há doações que não param às corporações de bombeiros; há instituições se oferecendo para prestar ajuda psicológica; profissionais de saúde se voluntariando para ir para o terreno ajudar naquele que já é considerado o pior incêndio de sempre em Portugal.


Mas apesar de ser o pior, ele não é único. Portugal tem, aliás, um historial grave de fogos de grandes dimensões. Numa pesquisa rápida a gente vê que em 1966 um fogo na Serra de Sintra matou 26 pessoas, sendo o mais mortífero até esse ano; em 1985 um fogo em Armamar matou 14 pessoas. Em 1986 a serra do Caramulo ardeu e matou mais 16 portugueses. Em 1988, o grande incêndio do Chiado destruiu lojas, escritórios e várias habitações, bem no centro da cidade de Lisboa.  Em 2003, no verão, arderam cerca de 300 mil hectares de floresta e morreram 18 pessoas. Apenas três anos depois, em 2006, seis bombeiros morreriam num fogo em Famalicão, no norte de Portugal. Em 2012 morreram seis pessoas em centenas de incêndios que ocorreram em todo o território nacional. Em 2013 houve sete mil – SETE MIL – incêndios em Portugal. No total, arderam mais de 100 hectares de floresta e morreram nove pessoas. Ano passado, em 2016, a ilha da Madeira viveu um terrível incêndio que matou três pessoas e destruiu quase 40 casas.

Muitas das vidas perdidas nesses fogos são de bombeiros que, sem equipamento adequado, se entregam a uma luta tantas vezes inglórias contra a natureza. Em Portugal, há quase 50 mil bombeiros voluntários e pouco mais de 6 mil bombeiros profissionais. Isso significa, também, que há muitas, demasiadas pessoas que todos os dias recebem muito pouco pelo tanto que fazem por um país que teima em não aprender com os erros do passado: ainda é cedo para apontar culpados para uma tragédia que não teve só como responsável uma tempestade. Mas não é cedo para obrigar as autoridades portuguesas a pensar nas políticas florestais que durante anos têm sido esquecidas; não é para obrigar as autoridades a pensar nos profissionais que todo o ano arriscam a vida em condições inacreditáveis porque as suas verbas vão ser cortadas à medida que o seu trabalho vai aumentando e se tornando mais arriscado; não é cedo para pedir que se apurem responsabilidades e que se discuta seriamente esse problema que já queimou demasiada floresta, demasiadas casas, demasiadas pessoas.

O que mais será preciso acontecer para que Portugal entenda que os incêndios, apesar de serem inevitabilidades da natureza, podem não ser ajudados por matas mal limpas, terrenos abandonados e uma verdadeira política de ordenamento do território? Que podem não ser ajudados por bombeiros que combatem chamas de calças de algodão e camisetas e chapéus de tecido ao invés de máscaras, fatos anti-chamas e capacetes? Que podem não ser ajudados com o descaso?

Quantas mais mortes terão que haver? O jornal Público fez uma das capas mais impactantes do dia que eu deixo aqui, junto com a pergunta que ele também faz: Porquê?

Capa do jornal Público 19.06.2017

 

 

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