Precisamos de trabalhar mais ou melhor?

Margarida Vaqueiro Lopes

08 Junho 2016 | 14h07

A discussão está em cima da mesa – eu sei que tenho começado muitos textos com essa frase incrível, mas Portugal está cheio de debates, esses dias! Eheh! O governo liderado pelo responsável do Partido Socialista, António Costa, conseguiu aprovar no parlamento o regresso das 35 horas semanais de trabalho para os funcionários públicos. No setor privado, o que está valendo ainda são as 40 horas semanais, tal como acontecia com o setor público até há pouco tempo.

O ministro da Fazenda (aqui Finanças), Mário Centeno, já avisou que esta redução de horário não poderá representar mais custos para os cofres do Estado, e ainda estão para resolver alguns contratos individuais que foram assinados nos últimos anos, quando estava no poder um governo de direita. Mas de forma geral, é isso: a Função Pública passará a trabalhar menos uma hora por dia que os trabalhadores privados. É óbvio que a contestação já chegou na rua, e que todo o mundo tem muito a dizer sobre um e outro caso, mas é assim sempre que há uma questão polêmica sofrendo alterações no hemiciclo, não é assim?

Confesso que me diz muito pouco a quantidade de horas que uma pessoa trabalha – se não estivermos falando de atendimento ao público, naturalmente, em que é preciso que as pessoas realmente estejam lá disponíveis, né?  – e me diz muito mais a sua eficiência. Ou seja: se eu em 35 horas consigo fazer o mesmo que muita gente em 40 horas, acho ótimo que me deixem trabalhar apenas as 35 sem ser penalizada por isso. Na Alemanha, por exemplo – ao contrário do que acontece aqui – é super mal visto eu ficar no meu trabalho para além do horário que está estabelecido: significa que não consegui fazer o que era suposto no tempo que estava delineado. Aqui, um chefe adora que a gente fique depois do horário como sinal de “comprometimento”. Para mim é absurdo, na verdade!

Aliás, tirando em serviços como fábricas, os já referidos serviços de atendimento ao público e pouco mais, acho que precisamos começar seriamente a pensar na flexibilização do horário laboral. E isso nem quer dizer que eu vá trabalhar menos. Quer dizer que eu não tenho que cumprir um horário das 9h às 18h (com uma hora de almoço pelo meio) todos os dias. Quer dizer que talvez precise de trabalhar um dia das 9h às 21h ou outro dia apenas das 11h às 16h. Se no final da semana, no final do mês, eu conseguir ter meu trabalho concluído, é um pouco indiferente quantas horas trabalhei, certo?


Agora, o que é preciso esclarecer em Portugal, é se as horas dos funcionários públicos valem mais ou menos do que as dos trabalhadores privados. E essa é a grande questão: se os salários médios são idênticos – e não são, porque em vários cargos que não são de topo, no público os salários são bem melhores -, mas se eu trabalho mais 20 horas por mês, isso signfica que basicamente a minha hora de trabalho vale menos que a da minha coleguinha do público. E dessa vez nem vou falar de todos os benefícios (sistemas de saúde, benefícios contratuais, pontos facultativos…) que eles têm.

Mas fica a dica: deveríamos todos começar a pensar em trabalhar melhor ao invés de nos focarmos em trabalhar mais ou menos que o nosso colega do lado. É que segundo dados da Pordata relativos a 2014, em Portugal a produtividade por hora era de 70 (numa escala de 0 a 100), bem longe da registrada no Luxemburgo, onde bate os 182.

Garanto que se nos focássemos nisso todo o mundo seria mais feliz. Bem mais feliz. E bem pago.

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