Somos todos culpados

Margarida Vaqueiro Lopes

03 Junho 2016 | 16h28

O caso da menina que terá sido estuprada por 30 homens no Rio de Janeiro chocou não só o Brasil mas também Portugal. Quando a notícia chegou a esse lado do Atlântico – via redes sociais, que fique bem claro – os media não quiseram saber, num primeiro momento. Nem num segundo. Somente depois de muita divulgação via Twitter, Facebook e blogues é que os media portugueses se dignaram a olhar para o caso com “olhos de ver”, como a gente tem por hábito dizer aqui.

Depois disso, foi uma loucura: todos os dias várias notícias são replicadas – na maior parte usando como fonte os media brasiileiros – e de repente tudo é informação relevante: que a menina saiu de casa, que a menina mudou de nome, que a menina está sob proteção (essa eu já vi umas 500 vezes), que a avó falou sobre isso e aquilo, que a menina não quis falar…enfim!

Que fique bem claro que acho absolutamente essencial que se fale sobre o assunto. É realmente muito grave que crimes contra as mulheres continuem se perpetuando a uma velocidade que nem nos dá hipótese de os combater; é essencial que a educação mude para que entendamos que mulher alguma pode ser vista como um objeto; é essencial que a sociedade entenda que estupro é CRIME e que em circunstância ALGUMA a vítima é culpada do que quer que seja. Portanto, sim, acho relevante que se fale do assunto e que se entenda o que está em causa.

O que não consigo entender é que quando há um caso escabroso como esse, os media o explorem até à exaustão para conseguirem cliques, mas que quando são chamados à responsabilidade de apurar, por exemplo, quantos crimes continuam acontecendo, quais as penas a que são sujeitos os autores dos crimes, que medidas estão sendo tomadas contra essas coisas…não haja matéria sobre o assunto.


Mais: me preocupa que personagens de extrema direita vão ganhando terreno no Brasil, com suas opiniões sobre a ‘inferioridade da mulher’, a ‘doença grave’ que é ser homossexual e opiniões que tal. Em Portugal não temos muita gente de extrema direita com repercussão, o que por agora me acalma. Mas não temos também uma cultura de debater questões relevantes como essas dos crimes contra as mulheres, que apesar de tudo, em muitos casos ainda são consideradas seres menores. Somos capazes de comentar que a saia da menina é demasiado curta e ainda a chamar de piriguete – o que inevitavelmente faz com que os rapazes, ainda que pequenos, achem que se ‘ela está pedindo’, quando veste uma saia curta. Somos críticos em relação ao uso de demasiada maquiagem, salto alto, mulher que trabalha 12 horas por dia em vez de ficar com as crianças, mulheres que dirigem empresas com pulso de ferro. Todas elas “querem ser homens” e muitas “não sabem o seu lugar”. E essas visões cônicas são o primeiro passo para muitos dos abusos e crimes a que assistimos e dos quais nos desresponsabilizamos porque “a culpa não é nossa”. É sim!! A culpa também é nossa!

Por isso, o apelo é para todos nós: que saibamos reagir preventivamente, educando os nossos filhos para entenderem que homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres; que homens e mulheres valem o mesmo; que homens e mulheres são isso mesmo: homens e mulheres, gêneros diferentes de uma mesma espécie, ambos necessários à sua sobrevivência, e que nem um nem outro tem o direito de se achar superior ou de tratar alguém como um objeto. Reagir ao crime, nos enojarmos, nos enfurecermos é natural. Mas mais importante é saber o que fazer para evitar que em pleno século XXI, numa sociedade onde nunca houve tanta informação, essas coisas não continuem acontecendo do lado da nossa casa.

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