Um clique, um soco

Margarida Vaqueiro Lopes

30 Agosto 2016 | 18h22

Foram dois casos em poucos dias: dois jovens (filhos do embaixador do Iraque em Portugal) espancaram um outro, deixando-o em estado muito crítico. Nenhum dos três envolvidos tinha mais de 17 anos. Esse final de semana, um rapaz de 16 anos bateu num garoto de 14 anos que acabaria por morrer no hospital. As perguntas são inevitáveis: o que está acontecendo em Portugal, o país dos brandos costumes, para esse aumento de violência gratuita entre os mais novos?

Os estudos se sucedem um pouco em todo o mundo. Se por um lado essas novas gerações são as mais bem formadas da História, elas são também as mais insatisfeitas. E as que têm uma relação diferente com a violência. Um reconhecido pediatra português, Mário Cordeiro, escrevia há umas semanas num artigo de opinião que grande parte da culpa está na internet e no tempo que os garotos passam navegando na rede. Os videogames – ultra violentos -, a facilidade de fazer bullying porque estão escondidos atrás de um ecrã, a banalização da morte estão criando verdadeiros monstrinhos que, não conseguindo distinguir a realidade virtual da real, acabam tendo exatamente as mesmas atitudes numa e outra para resolver os problemas: partem para a violência e, no limite, matam.

Também há duas semanas a revista americana Time fazia capa com um artigo sobre “Por que estamos perdendo a internet para a cultura do ódio”. Num dos parágrafos, que achei particularmente pertinente, o jornalista escreve que “nesta nova cultura de guerra, a batalha já não é sobre homossexualidade, aborto, letras de música rap, drogas ou como felicitar as pessoas no Natal. Ela se expandiu para qualquer e toda a coisa: vídeogames, propaganda a roupa e até remakes de comédias dos anos 80”.

E continua mais à frente: “expressar opiniões socialmente inaceitáveis […] está se tornando socialmente aceitável”, afirma, depois de enumerar uma quantidade de exemplos reais.


Ah, mas todo o mundo usa a internet hoje em dia, dizem alguns. Não faz sentido que atinja particularmente os jovens. É verdade. No entanto, a grande diferença é que quem começa a usá-la mais tarde, como foi o nosso caso, consegue ‘compartimentar’ as coisas: uma coisa é a realidade; outra coisa é a internet. Quando a utilização da internet é feita intensivamente bem durante a formação da personalidade de uma pessoa..bom, o resultado está à vista, verdade?

Voltando a Portugal, no caso do moço que ficou em estado grave, os dois filhos do embaixador do Iraque – que têm imunidade diplomática, o que está complicando a atuação das autoridades – afirmaram em entrevista que agiram em “legítima defesa”, porque o garoto que espancaram os tinha insultado. Ora, alguém nos insulta e a gente sai na porrada até quase matar o cara. Certo. No caso do garoto que morreu, o agressor se entregou às forças policiais e explicou que tudo tinha começado com uma briga no Facebook, por causa de uma menina. Vou repetir: o garoto morreu!

Eu não sou assim tão velha, mas no meu tempo a galera até podia ter umas brigas e tal, mas daí a deixar alguém em coma vai um caminho muito muito longo. Tal como vai um caminho muito longo entre o insulto gratuito e a crítica. Tal como vai um caminho muito longo entre a realidade virtual e a VIDA real – embora cada vez seja mais fácil confundi-las, sobretudo depois de passar um verão inteiro vendo garotos caçando Pokemon no meio da rua, ao invés de estarem mergulhando no mar e brincando com os amigos.

Moral da história? Não sei bem onde isso vai parar, mas cada vez acredito mais que precisamos urgentemente de controlar mais o que as crianças e jovens consomem diariamente. Cada vez acredito mais que precisamos ter muito cuidado na formação da personalidade das novas gerações, que são absolutamente despraparadas quando falamos de inteligência emocional. Cada vez acredito mais que essas gerações andam bem perdidas sobre o que querem da vida, realmente.

Acompanhe o blogue no Facebook e no Instagram