Um ‘El Dourado’ para os investidores

Um ‘El Dourado’ para os investidores

Margarida Vaqueiro Lopes

11 Abril 2017 | 08h00

Na semana passada a conceituada revista inglesa The Economist fez um artigo sobre a economia portuguesa, e sobre como, sem medidas de austeridade, o país estava muito melhor. A matéria repercutiu em todo o mundo, no Brasil inclusive. A tese é clara: o governo de esquerda, liderado por António Costa e que sucedeu ao governo que aplicou as medidas da ‘troika’, retirou as principais medidas de austeridade e a economia alavancou. Por exemplo, o deficit orçamentário caiu para 2,1% do PIB, o melhor resultado desde 1974 – ano em que o país passou a viver em democracia.

Também o deficit fiscal foi reduzido, ao mesmo tempo que os salários e as aposentadorias subiram. Houve ainda redução das horas trabalhadas e tudo isso num cenário em que a economia cresce pelo terceiro ano consecutivo. Parece milagre, não é? Pois é. É que o que falta saber, nessas contas da The Economist, é se essas medidas que o governo aplicou são sustentáveis. Por exemplo: a presidente do Conselho de Finanças Públicas – órgão independente que fiscaliza a aplicação de regras orçamentárias e a sustentabilidade das medidas – diz que realmente “houve um milagre”. Porque “este tipo de medidas não são sustentáveis. Teodora Cardoso estava falando concretamente de um corte radical no investimento público que foi feito no final do ano passado, porque a União Europeia avisou o governo de esquerda que iria aplicar sanções se as metas do deficit não  fossem cumpridas. “O que resolve o problema da despesa pública é uma reforma que tenha efeitos a médio prazo de melhor gestão das despesas, de qualidade das despesas e de ganhos de eficiência”, avisou a economista numa entrevista ao jornal nacional Público e à Rádio Renascença.

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Lisboa é uma cidade cada vez mais cara para os portugueses.

Além do que a dívida pública do país está agora em 131% do PIB, um número que é assustador e praticamente impossível de pagar. A BBC Brasil escrevia, por exemplo, que “é notório o contraste entre a melhoria das condições econômicas em Portugal e a deterioração registrada em outros países europeus”. E que melhorias, pergunto eu. É certo que para os investidores estrangeiros, nomeadamente brasileiros, Portugal está um verdadeiro paraíso: franceses, brasileiros e chineses têm aproveitado para comprar imóveis de luxo; todas as empresas estrangeiras querem ter um pedaço de uma empresa portuguesa, seja através de start-ups ou de investimentos em agricultura, em vinho, em hotéis, restaurantes, o que seja. Mas como estão os portugueses? De que forma estão se vivendo essas melhorias de que falam as publicações estrangeiras? Vou deixar alguns números para que tirem suas próprias conclusões.


Desemprego jovem – 26,5% (um em cada quatro jovens não tem emprego);

Impostos – 41% (em média, cada português leva para casa apenas 59% do salário ilíquido. O restante é para pagar imposto e Seguridade Social)

Salário médio – 838 euros em 2016 (cerca de 50% do salário médio do resto dos países da União Europeia)

Aluguel de casa em Lisboa – 830 euros no início de 2017(valor médio. Por menos de 500 euros é praticamente impossível. Legal para quem ganha, em média, 838 euros J)

Custo de vida – Eletricidade, aluguel, transportes públicos, telecomunicações e pedágios ficaram mais caros esse ano, com subidas entre os 0,5 e os 1,5%.

Salário real – Caiu 0,7% desde 2009. Isso mesmo. Segundo um estudo publicado pela Confederação Europeia de Sindicatos, o salário real português (corrigido pela inflação) foi em 2016 mais baixo do que há 8 anos.

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