As viagens de Mia Couto

As viagens de Mia Couto

Daniel Ribeiro

11 Fevereiro 2016 | 00h37

Praia dos Pescadores, em Moçambique. Foto: reprodução do site do autor.

Praia dos Pescadores, em Moçambique. Foto: reprodução do site do autor.


Sabemos pouco da África, ou das Áfricas, como diz meu entrevistado de hoje. Com um jeito envolvente e simples de escrever, ele tem feito muitos se interessarem um pouco mais por esse continente que é um, mas são muitos. Mia Couto é moçambicano e o autor mais conhecido daquele continente na atualidade. Seus livros já foram publicados em 24 países e “Terra Sonâmbula” foi considerado um dos dez livros africanos do século XX.

Autor de muitos títulos que falam sobre viagens, como “O outro pé da sereia” e “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” – todos publicados no Brasil pela Cia. das Letras – ele vive perambulando pelo mundo convidado para dar palestras.  Fiz a ele algumas perguntas sobre viagens e as respostas reproduzo integralmente sem alterar a grafia do português moçambicano.

Mia Couto - Divulgação Cia. das Letras ©Bel Pedrosa

Mia Couto – Divulgação Cia. das Letras ©Bel Pedrosa

Gostaria que contasse quais foram os lugares que mais gostou de conhecer e por quê?

Mia Couto: Os lugares que mais gostei foram aqueles que me trouxeram histórias ou me colocaram a mim, numa história. Lembro de, na infância, ter visitado uma reserva de fauna chamada Gorongosa e que ficava a uma centena de quilómetros da minha cidade natal. Íamos lá, segundo o meu pai, “ver os bichos”. Quando lá cheguei a minha sensação foi indescritível. Eu estava em pleno vale do Rift, essa fractura que atravessa toda a África e na qual nasceu a espécie humana. Esse espaço aberto e imenso actuou para mim com o poder de uma catedral, de uma ligação divina.  Eu ia lá ver os bichos . Mas foi lá que, pela primeira vez, fui visto do Deus.

Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique - Reprodução da página oficial do Gorongosa National Park no Facebook

Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique – Reprodução da página oficial do Gorongosa National Park no Facebook

Sua obra é repleta de viagens. “O outro pé da sereia” e “Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra” são apenas alguns exemplos. O que acha que as viagens mudam nas pessoas?

MC: Só mudam se as pessoas viajarem por dentro. Se elas estiverem disponíveis para o encontro, se estiverem disponíveis a deixarem de ser quem são. Numa outra palavra, deslocamo-nos muitos e viajamos pouco porque vamos quase sempre cheios de nós mesmos. Essa outra viagem, desprovida de bagagem, é essencial nos dias de hoje em que nos apresentam um mundo repleto de medos construídos e inimigos que foram cuidadosamente encenados. Estamos saturados de clichés e estereótipos sobre os “outros”. Nunca estivemos tanto dentro das nossas pequenas fortalezas. A viagem enquanto questionamento e deslocação de certezas é absolutamente urgente

Uma passagem de “O outro pé da sereia” ficou bastante conhecida: “A viagem não começa quando se percorrem distâncias, mas quando se atravessam as nossas fronteiras interiores. […] A viagem termina quando encerramos as nossas fronteiras interiores. Regressamos a nós, não a um lugar”.  É possível voltar para o lugar de onde partimos quando ultrapassamos nossas fronteiras?

MC: Isso depende do que chamam “nós”. Entendemos essa entidade como algo definitivo e formatado. Existe um provérbio africano de quem sou muito seguidor e que diz: nós somos os outros. Nesse sentido não há regresso. Há travessias. Nós viajamos se formos, ao mesmo tempo, viajados pelos outros.

Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique - Reprodução da página oficial do Gorongosa National Park no Facebook

Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique – Reprodução da página oficial do Gorongosa National Park no Facebook

Quando viaja, o que não deixa de fazer?

MC: Quero ver pessoas, a vida, o flagrante quotidiano. Dou prioridade a essa imersão nas ruas. Antes de visitar museus e monumentos eu quero sentir o outro lugar, a outra cultura. Quero viajar por pessoas e não por geografia. Quando visito monumentos eu prefiro fazê-lo quando estou sozinho. Não quero cicerones, quero ter um primeiro momento de absoluta ingenuidade, sem intermediações de ninguém.

Quais são as viagens que ainda gostaria de fazer?

MC: É impossível enumerar. Falta conhecer o mundo inteiro. Falta-me mesmo conhecer o bairro onde moro. Há um imenso Brasil onde nunca fui e adoraria conhecer. Há uma América do Sul que desconheço. Mas eu queria sobretudo, ter tempo. Tempo para não ser turista, para poder olhar esses lugares para além da imagem que deles se fabricou e vendeu.

Lê durante suas viagens? O quê?

MC: Leio sempre e leio caoticamente. Levo livros leves, livros de viagens, de crónicas, de poesias. Penso sempre que volto tendo comprado mais livros e que essa literatura que vou encontrar nesse lugar de destino é que me ocupará durante a viagem. Essa leitura faz parte da descoberta.

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Parque Nacional Gorongosa, em Moçambique – Reprodução da página oficial do Gorongosa National Park no Facebook

 

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