Porto de Galinhas e o fundo do mar

Porto de Galinhas e o fundo do mar

Daniel Ribeiro

04 Agosto 2016 | 10h33

Porto de Galinhas. Foto: Ministério do Turismo.

Porto de Galinhas. Foto: Ministério do Turismo.

Porto de Galinhas ganhou por anos seguidos o título de melhor praia do Brasil e se tornou um destino muito procurado, deixando muitos turistas, que costumavam ir para lá quando ainda não havia sequer energia elétrica, bem frustrados. Um destino assim merece algum planejamento, tanto pela variedade de opções quanto pela lotação. Planejamento foi exatamente a etapa que eu pulei antes de ir para Porto.

Planejamento é importante, eles disseram.

Cheguei a Porto de Galinhas em uma quinta-feira à noite. Peguei um ônibus de linha que sai do aeroporto de Recife e te leva até Porto por R$ 10,50. Até aí tudo bem, o problema é que a sexta-feira era feriado e aquele era um fim de semana prolongado. Imagine uma cidade pequena e cheia de gente, muito cheia de pessoas com os mais variados perfis: famílias, jovens, recém-casados, idosos e o que mais conseguir imaginar.


Minha primeira missão foi ir até um hostel que tinha indicação procurar uma cama. Obviamente não havia lugar para dormir sequer atrás do balcão da recepção. Indicado por eles, fui até o Albergue do Alberto, minha única possibilidade de dormir em um colchão naquela noite. Consegui um quarto coletivo sem chave e sem armário. O Alberto é um cara gente boa, mas o lugar é bem estranho: pequeno, meio improvisado e não muito limpo. Era minha única opção, então encarei o desafio sem pestanejar.

Como era noite, saí para caminhar. A localização do albergue não poderia ser melhor, ele fica bem no meio do fervo. A poucos passos do quarto, o centro de Porto de Galinhas parecia um formigueiro de gente. Tudo o que vi foram lojas, restaurantes, lojas, pousadas, lojas, bares e lojas. Fui até a praia e naquela escuridão pensei “melhor ir embora ainda amanhã e tentar a sorte em Recife”.

No dia seguinte, um pouco desapontado com a lotação do lugar e aquele monte de comércios, fui até a praia ver o que seria então a melhor praia do Brasil. Dei o braço a torcer, a praia é realmente linda. Longa e cheia de corais e piscinas naturais ao longo da faixa de areia. A areia, por sinal, clara e bem limpa na ocasião. Cheia, mas por ser extensa há espaço para todos e dá para caminhar por muitos quilômetros.

Animado com o dia de sol e a praia nada decepcionante, resolvi dar mais uma chance a Porto de Galinhas e decidi ficar mais uma noite. O Albergue estava tranquilo, as pessoas eram bem gentis e ali tinha sol, praia e um monte de gente por conhecer. Quando voltei para o quarto e tomei meu refrescante banho frio – devo dizer que odeio banho frio, mesmo quando está calor, mas no Nordeste eles são necessários – conheci uma das outras hóspedes, Tanja.

As pessoas que você encontra em uma viagem mudam tudo

Tanja é suíça, veio ao Brasil a trabalho e aproveitou para visitar uma amiga de Recife e conhecer Porto. Entre uma cerveja e outra, ela me contou que era mergulhadora e que havia escolhido Porto entre as praias do norte de Pernambuco pelas boas recomendações de mergulho ali. Logo comentei que mergulhar poderia ser incrível, mas como não sei nadar, tinha medo.

Tanja me encorajou – talvez a cerveja também – e decidi mergulhar no dia seguinte. Ela me garantiu que mergulhar não tinha uma relação direta com saber nadar e lá fui eu. No dia seguinte acordei cedo e fui com ela à agência agendar meu mergulho. Duas horas depois, já havia me despedido de Tanja que voltou para Recife, estava eu indo para a praia encontrar o instrutor.

Viajar é enfrentar-se a si mesmo.

Eu, que não sei nadar, no fundo do Atlântico.

Eu, que não sei nadar, no fundo do Atlântico.

No caminho pensava em desistir e que “como ela já foi mesmo, não vou nem passar vergonha”. Contudo, enfrentei meus medos e fui. Antes do mergulho tivemos um breve curso teórico (breve mesmo, uns 10 minutos) e fomos para a jangada. Ali, meu instrutor se apresentou, mandou eu colocar o equipamento e entrar na água.

Entrei, avisei que não sabia nadar e ele só pediu que não soltasse sua mão. A partir daí foram 19 metros para baixo d’água e uma experiência de vida inesquecível. Não me desesperei nem um minuto e foi surpreendente a sensação confortável de estar rodeado de cardumes coloridos. Depois dessa viagem ainda não aprendi a nadar, mas tive outras experiências de mergulho e recomendo enfaticamente.

Uma das melhores coisas das viagens é ter experiências novas. Porto de Galinhas começou mal e tinha tudo para ser um fim de semana sem graça. No fim das contas conta como uma das minhas melhores histórias de viagem.

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