“Poucos animais” – ou sobre frustrações em viagens

“Poucos animais” – ou sobre frustrações em viagens

Daniel Ribeiro

20 Outubro 2016 | 21h14

Flamingo desenhado por turista em Galápagos. Daniel Ribeiro, 2012.

Flamingo desenhado por turista em Galápagos. Daniel Ribeiro, 2012.

Há alguns anos fui a Galápagos, no Equador, em um cruzeiro. Os brasileiros que me acompanhavam e eu ficamos encantados com o lugar, a preservação, a natureza exuberante e diversa, além de claro, os animais. Eu fiquei particularmente empolgado com as tartarugas gigantes que tanto queria ver (O George já tinha morrido) e depois, impressionado com as aves.  E ainda pude ver dois pinguins perdidos e um tubarão. O único animal que não conseguimos ver foi o flamingo. Apesar disso, um casal de israelenses que estava no navio parecia muito decepcionado por haver “poucos animais”.  Segundo a senhora, em Israel eles conseguiam ver tudo aquilo, mas esperavam ver praias lotadas de lobos marinhos.

Em Galápagos. 2012.

Em Galápagos. 2012.

De fato, na época em que fomos, já havia passado a época das crias quando tiram as fotos dos catálogos de viagem em que a praia vai estar, de fato, repleta de animais. Fato é que os catálogos de viagem são produzidos com as melhores imagens que muitas vezes levam dezenas de tentativas para ficarem boas. Nelas ainda são aplicados filtros e muitos outros recursos de edição para que fiquem perfeitas.


Os lençóis maranhenses é o um dos lugares mais lindos que conheço. Mas, de verdade? Eu não consegui ver lá aquela paisagem que as buscas do Google mostram. Ainda assim está na minha lista de lugares mais bonitos do mundo. E vou voltar algumas vezes lá, até que, quem sabe um dia, eu consiga ver essa paisagem da foto. Em compensação, fui a Caburé, lugar do qual nunca tinha ouvido falar e não esperava absolutamente nada. Foi surpreendente e lá fiz a foto da Paulina com a galinha Titita.

Paulina e Titita. Caburé, MA. Daniel Ribeiro, 2010.

Paulina e Titita. Caburé, MA. Daniel Ribeiro, 2010.

Fato é que esse papo de “crie codornas, mas não crie expectativas” é a coisa menos humana que se pode pensar. Nós criamos expectativas e precisamos aprender a lidar com as frustrações.  Viajar é um excelente exercício para lidar com as expectativas.

Nesta semana uma amiga me disse “Dani, Curaçao é uma m%#$@!”. Ela ainda disse que as fotos são fabulosas, mas que não tinha nada para fazer. Ela não é uma pessoa de praia, gosta de museus, de compras, de shows, de concertos, de jantares e Curaçao não ofereceu muita coisa pra ela. O que fazer? Se divertir, apesar da frustração.

Os guias de viagem, os blogueiros (como eu), os sites especializados nos fazem pensar que toda viagem precisa ser um sonho perfeito.  Às vezes não é. O que nós não contamos muitas vezes é que costumamos mostrar o lado melhor de cada lugar, mas nos enfiamos em muito buraco também. Não dizemos que das centenas de fotos que fizemos, selecionamos meia dúzia para mostrar.

Ilha Bartolomé. Galápagos. Daniel Ribeiro, 2012.

Ilha Bartolomé. Galápagos. Daniel Ribeiro, 2012.

Viajar é sempre uma experiência enriquecedora, ainda que não seja toda vez perfeita e que haja frustrações pelo caminho. O ato de viajar é um garimpo, é achar ouro em meio a um monte de outras coisas. Quem viaja acaba aprendendo a fazer isso na vida cotidiana e descobre que vale a pena tanto cavucar para encontrar o ouro sonhado.

 

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