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A batalha das tintas

Aryane Cararo

21 Maio 2013 | 07h02

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Aryane Cararo

Os pés estão gastos. Esvaecem em pequenas rachaduras. Sofrem. Eles que sempre pareceram tão vivos, tão fortes nessa caminhada, foram vencidos pelo tempo. E agora desaparecem numa batalha em que a tinta não consegue mais vencer a idade. Curioso olhar para eles, porque nunca foram objeto de minha atenção. Nem daqueles que decidiram reproduzir A Última Ceia (1495-98), uma das maravilhas do florentino Leonardo da Vinci, em gravuras que muitas vezes cortavam os pés de Jesus e seus apóstolos.

Uma parte de mim definha com aqueles pés. A sensação de entender que uma obra não dura para sempre e que aquele ícone que me acostumei a ver nas casas de tantos fiéis – em número maior até que as reproduções de Mona Lisa, outra de suas obras-primas –, é assim tão frágil. Uma fragilidade recuperada com o último restauro, de 1999. É preciso afastar as lágrimas da emoção para não perder tempo de apreciação daquele que é um privilégio que dura 15 minutos apenas (a partir de 23,50 euros), em grupos de 25 pessoas, tão bem guardado por um sistema de segurança que inclui câmaras fechadas por portas automáticas, ar climatizado e funcionários dispostos a tirar dali quem quer esticar um pouco mais a contemplação. É preciso sentar, apreciar os detalhes.


Se faltam cores nos pés, elas ainda resplandecem na parte superior da obra. Há uma luz diferente naquele que está ao lado esquerdo de Cristo, apontado como João. Surgem dúvidas. Não se parece com um homem. Bem como Tiago, o segundo da esquerda para a direita. São impressões que as reproduções jamais me permitiram o debate interno. Conclusões que cada um deve tirar, ou dúvidas a levar, somente após ver a maestria de Da Vinci com o uso de luz e sombras, dando volume e solidez para as figuras habilmente compostas no refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão.

Fato é que Leonardo nos transporta para outro estado de espírito com a pintura encomendada por Ludovico Sforza, o Mouro, que governava Milão à época. Executada em têmpera sobre emboço, ela impressiona pelo tamanho majestoso: 8,8 x 4,6 metros. E surpreende pela porta que decepa os pés de Cristo, aberta posteriormente pelos monges. Nada que diminua a comoção. Admiração que pode ser estendida para outra obra do artista em Milão, bem menos conhecida: o afresco na Sala dele Asse (1498-99), no Castello Sforzesco, que representa um emaranhado de troncos de árvores. Se a intenção é seguir o mestre, há um espaço em sua homenagem, o Museu de Ciência e Tecnologia Leonardo da Vinci, que tem máquinas baseadas em seus desenhos, e o Museu de Arte e Ciência, com duas exposições permanentes sobre Da Vinci.

Em Florença: A maestria de Leonardo pode ser vista em obras na Uffizi e no Museu Leonardo da Vinci.